Às Cinco e Meia da Manhã

 

Roberto tinha cinquenta e três anos quando a Cláudia morreu.

Eles haviam sido casados por vinte e seis. Não vinte e seis anos de cartão de dia dos namorados e viagens para lugares bonitos — vinte e seis anos de rotina construída em cima de pequenas coisas que só faziam sentido juntas. O café dela sempre mais fraco que o dele. A janela do quarto que ela abria toda manhã mesmo no inverno porque dizia que o ar parado deixava a cabeça pesada. A forma que ela tinha de chamar o nome dele de outro cômodo, sempre com uma nota de pergunta no final, mesmo quando não era uma pergunta.

Roberto demorou seis meses para conseguir dormir sem acordar no lado dela da cama esperando o café fraco e a janela abrindo.

O médico disse que precisava se mover. O psicólogo disse que o corpo guardava a dor nos músculos e que mover ajudava a soltar. A filha comprou uma bicicleta e deixou na garagem sem comentário. Roberto ficou olhando pra ela por duas semanas antes de tirar o cadeado.

Começou num sábado às seis da manhã. Pedalou três quilômetros sem destino e voltou.

Na semana seguinte passou a sair às cinco e meia.

Não por razão específica — só que às cinco e meia a cidade ainda não havia acordado de vez e as ruas tinham uma qualidade de silêncio que ele precisava naquele período. Sem gente. Sem conversas que exigissem respostas. Só ele, a bicicleta, e o asfalto ainda frio.

Foi na terceira semana que ele viu o gato.

Na esquina da Rua das Acácias com a Rua Barão — o ponto onde ele sempre virava pra entrar na subida mais longa do percurso — havia um Siamês sentado no meio da calçada olhando na direção de onde ele vinha. Roberto diminuiu, passou, o gato ficou parado.

Na semana seguinte ele estava no mesmo lugar.

Roberto parou. O gato olhou pra ele. Roberto pedalou.

Na semana depois o gato estava na esquina antes dele. Roberto olhou o relógio. Eram cinco e vinte e oito. Ele havia saído de casa às cinco e quinze, pedalado no ritmo de sempre. Não havia como o gato saber.

E mesmo assim ele estava lá.

Dali em diante Roberto parou de questionar. Toda manhã às cinco e meia o gato estava na esquina da Rua das Acácias — sentado no meio da calçada como um ponto de referência em mapa, olhando na direção de onde a bicicleta vinha. Quando Roberto dobrava a esquina o gato se levantava, trotava ao lado por meio quarteirão e depois sentava de volta enquanto ele subia a ladeira.

Como se aquele fosse o trecho dele e o restante fosse o trecho do Roberto.

Numa madrugada de julho Roberto acordou às quatro da manhã sem conseguir voltar a dormir. Ficou olhando pro teto por uma hora e então decidiu sair mais cedo. Pedalou até a esquina das Acácias às cinco e dois.

O gato não estava lá.

Ele pedalou mais devagar. Deu a volta no quarteirão. Voltou pra esquina.

Às cinco e vinte e seis o gato apareceu no fim da calçada trotando no seu ritmo habitual, sem pressa, sem sinal de que havia algo fora do esperado. Chegou na esquina, sentou, olhou pra Roberto com uma expressão que Roberto depois descreveu como você chegou antes da hora, o problema é seu.

Roberto riu.

Não foi um riso grande. Foi o tipo de riso pequeno e involuntário que escapa antes que a gente perceba que está rindo — o tipo que a Cláudia teria reconhecido imediatamente porque era o riso que ele fazia quando algo o pegava de surpresa de um jeito bom.

Ele ficou parado na bicicleta na esquina das Acácias por um longo tempo depois disso.

O gato sentou do lado e ficou olhando pra rua com ele.

Às cinco e meia em ponto os dois seguiram cada um no seu trecho.

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