Pelos Corredores da Emergência

 

O Hospital Municipal da Zona Norte tinha um problema que não era exatamente um problema.

Havia uma gata.

Uma Siamesa de pelo creme e olhos azuis que havia aparecido na entrada da emergência há pouco mais de um ano e que havia gradualmente se tornado parte da paisagem do turno noturno com a naturalidade de quem não foi convidado mas cuja presença ninguém consegue objetar. Os funcionários do turno da noite haviam começado a deixar comida na calçada lateral. O segurança da entrada, um homem alto e silencioso chamado Seu Valdomiro, havia construído com caixas de papelão e uma lona plástica um abrigo ao lado da rampa de ambulâncias que sobreviveu a duas chuvas fortes e ao desaprovação informal da chefia de segurança.

A gata havia sido chamada de Urgência pela técnica de enfermagem Silmara, que trabalhava nos anos pares e tinha opinião sobre tudo. O nome pegou.

Urgência não entrava no hospital.

Havia uma linha invisível na entrada automática que ela nunca cruzava — ficava do lado de fora, observava o movimento da emergência com aquela atenção Siamesa que parecia registrar mais do que os olhos humanos notavam, aceitava a comida que lhe era oferecida e ia dormir no abrigo do Seu Valdomiro quando o movimento diminuía.

Essa era a regra.

A regra durou um ano, dois meses e onze dias.

Na manhã de uma quarta-feira a auxiliar de limpeza Rosa chegou pro turno às seis da manhã e encontrou Urgência do lado de fora da porta automática com um filhote na boca.

— Meu Deus — disse a Rosa.

Urgência olhou pra ela.

A porta automática abriu.

Urgência entrou.

O corredor da emergência às seis da manhã tinha o ritmo específico da virada de turno — profissionais saindo, profissionais entrando, maqueiros com olheiras, médicos com café. A Urgência atravessou tudo isso com o filhote na boca com uma compostura que fez com que as pessoas se afastassem instintivamente antes de entender o que estavam vendo.

Ela parou na frente do Dr. Marcus, que havia acabado de assumir o turno da manhã e estava relendo um prontuário encostado na parede do corredor.

Ele olhou pra baixo.

A Urgência depositou o filhote no chão à seus pés e o olhou.

O Dr. Marcus ficou parado por um momento com o prontuário ainda aberto na mão.

Depois se abaixou.

O filhote tinha os dois olhos com infecção severa — inchados, com secreção, quase completamente fechados. Estava vivo mas fraco. Devia ter três semanas de vida.

— Isso é uma emergência — disse o Dr. Marcus para nenhum interlocutor específico.

A Silmara, que havia chegado para o turno da manhã e assistia a cena do fim do corredor, disse depois que não sabia se ele estava sendo literal ou irônico mas que havia funcionado como os dois.

O Dr. Marcus pediu material para a técnica mais próxima sem se levantar do chão. A técnica foi buscar sem perguntar — havia algo no tom que não deixava espaço para pergunta. Uma seringa de soro fisiológico, algodão, luva. O médico limpou os olhos do filhote no corredor da emergência enquanto a Urgência ficou sentada a um metro de distância assistindo com uma imobilidade que três enfermeiras depois descreveram de formas diferentes mas que todas terminavam na mesma conclusão.

Ela sabia que estava no lugar certo.

O filhote foi levado para a sala de observação — que era destinada a humanos mas que naquela manhã teve uma exceção que o chefe do setor preferiu não documentar formalmente. A Urgência foi com ele e ficou embaixo da maca.

O Dr. Marcus ligou para uma clínica veterinária parceira do hospital — existia um convênio informal para exatamente esse tipo de situação, que era mais comum do que as pessoas de fora do sistema de saúde imaginariam. A veterinária chegou em quarenta minutos, examinou o filhote, confirmou a infecção, deixou medicação e instruções.

A Urgência ficou na sala de observação até o filhote ser estabilizado.

Quando a veterinária abriu a porta para ir embora a Urgência saiu junto, atravessou o corredor no mesmo sentido em que havia entrado, passou pela porta automática da emergência e foi para o abrigo do Seu Valdomiro.

O Seu Valdomiro, que havia assistido toda a cena do seu posto de segurança e não havia dito uma palavra, olhou para ela se instalar no abrigo.

Depois olhou para a câmera de segurança que havia gravado a entrada.

E teve a consciência profissional de não mencionar a ninguém que havia assistido sem intervir.

O filhote passou seis dias na sala de observação.

Urgência aparecia na porta automática duas vezes ao dia.

O Seu Valdomiro abria.

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