O Nome na Pedra

 

O funcionário Geraldo trabalhava no Cemitério Municipal do Carmo há onze anos e havia aprendido que lugares assim tinham regras próprias que não estavam escritas em nenhum manual.

Regras sobre silêncio — não o silêncio pedido mas o silêncio que existia independente de pedido. Regras sobre como se movia entre os túmulos, sobre o ritmo específico do trabalho, sobre quais conversas se tinha e quais se guardava. Ele havia aprendido tudo isso sem que ninguém ensinasse, da forma como se aprendem as coisas nos lugares que têm peso.

O gato ele havia notado no terceiro mês de trabalho.

Um Siamês que circulava pelo cemitério com uma familiaridade que indicava presença longa — não o nervosismo dos animais em território novo mas a calma dos que já mapearam cada caminho. Geraldo o havia visto em diferentes partes do cemitério nas primeiras semanas, mas com o tempo foi percebendo um padrão.

O gato sempre voltava pro mesmo lugar.

Túmulo 847, setor C, fileira do meio. Uma lápide simples de mármore branco com letras pretas — nome, data de nascimento, data de morte. O gato ficava ali — encostado na base da pedra, às vezes deitado na grama ao lado, às vezes sentado com aquela postura de quem não tem pressa de ir a lugar nenhum.

Geraldo começou a anotar. Não por método — era de natureza observadora, anotava coisas como outros respiram. Em seis meses de notas confirmou o que havia suspeitado: o gato visitava outros túmulos ocasionalmente, passava por quase todos os setores durante a semana, mas sempre voltava pro 847.

Sempre.

Numa tarde de outubro ele foi até a lápide com o caderninho.

Copiou o nome. Copiou as datas.

Naquela noite em casa fez o que qualquer pessoa faria — procurou na internet. O nome não era incomum mas havia poucos resultados. Numa página de notícias antigas de três anos atrás encontrou uma nota de falecimento num jornal de bairro. Leu duas vezes.

A mulher havia sido professora primária por trinta e dois anos. Morava sozinha no bairro do Carmo desde que os filhos haviam crescido e saído. Era conhecida na vizinhança, segundo a nota, pela horta que mantinha na frente de casa e pelos gatos de rua que alimentava — havia anos que colocava comida todo dia na calçada, que levava animais feridos ao veterinário, que conhecia pelo nome cada gato que frequentava o quarteirão.

Geraldo fechou o computador.

Ficou sentado na mesa da cozinha por um tempo sem fazer nada.

No dia seguinte chegou mais cedo no trabalho. Foi direto pro setor C, fileira do meio, túmulo 847. O gato já estava lá — encostado na base da lápide como sempre, olhando pra ele com aquela calma de quem não tem nada a esconder.

Geraldo sentou na grama do lado.

Ficaram os dois em silêncio por um tempo — o homem, o gato, e o nome na pedra entre eles.

Depois Geraldo foi trabalhar.

Mas toda tarde, antes de ir embora, passa pelo túmulo 847. Às vezes traz um pedaço de frango cozido. Às vezes só para por um momento.

Ele diz que não sabe se o gato pertencia a ela, se a conhecia, se há uma lógica que a biologia explica pra esse tipo de comportamento.

Só sabe que em seis anos o gato não falhou um dia.

E que no cemitério as regras não escritas incluem respeitar o que não tem explicação.

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