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Se Eu Fechar os Olhos

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  Andrea havia adotado a Lua numa tarde de sexta-feira. Havia ido ao abrigo sem intenção específica — havia levado doação, havia ficado olhando os gatos, havia parado na frente de uma Siamesa de onze anos que havia olhado de volta com os olhos azuis que tinham aquela qualidade que Andrea depois tentou descrever para a irmã como já viram muita coisa mas ainda estão aqui. Havia perguntado o histórico. Encontrada na rua. Idade estimada onze anos. Saudável para a idade. Quatro meses no abrigo. Havia perguntado por que havia estado quatro meses no abrigo. A funcionária havia ficado quieta por um momento. — Gatos mais velhos ficam mais tempo — ela havia dito. Andrea havia olhado para a Lua. A Lua havia olhado de volta. — Eu levo ela — havia dito Andrea. Na primeira semana Andrea havia notado algo. A Lua dormia. Dormia muito, como fazem os gatos velhos que haviam finalmente encontrado um lugar seguro onde dormir era possível. Mas havia algo diferente no modo que dormia quando ...

O Décimo Segundo Mês

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  Jéssica havia começado a deixar comida em maio. Não era um plano — era uma resposta. A gata Siamesa havia aparecido no jardim dos fundos numa manhã e havia ficado parada perto da cerca olhando para a casa com aquela atenção específica que não era súplica mas que era alguma coisa que não deixava a Jéssica olhar para o outro lado com facilidade. Ela havia posto um prato perto da cerca. A gata havia comido quando ela foi embora. Havia sumido antes que ela voltasse. Esse era o padrão do primeiro mês. A gata comia quando Jéssica não estava olhando. Quando Jéssica aparecia pela janela ela congelava. Quando Jéssica abria a porta dos fundos ela sumia no mato que havia no fundo do jardim e não voltava por horas. Jéssica havia pesquisado. Havia lido sobre gatos ferais, sobre a diferença entre feral e assustado, sobre o tempo que podia levar para um animal que havia aprendido que humanos eram perigosos desaprender essa lição. Os textos falavam em meses. Alguns falavam em mais de um an...

O Número Que Ela Não Mudou

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  Angela havia perdido o Simba em outubro. Não foi descuido — foi uma daquelas coisas que acontecem com a rapidez específica das perdas que não dão aviso: uma janela aberta por dois minutos enquanto ela foi atender o telefone, e quando voltou havia só a janela aberta e o apartamento com a qualidade de silêncio que ela levou um tempo para aceitar como permanente. Ela havia colocado cartazes. Havia percorrido o bairro. Havia ligado para todos os abrigos da cidade. Havia passado semanas no processo gradual de aceitar que Simba — um Siamês de dois anos com quem havia dormido todas as noites desde que o trouxe pra casa — havia ido e não voltaria. O que ela não havia feito era mudar o número de telefone. Não havia uma razão articulada para isso. Era um número que tinha há muitos anos, que seus contatos conheciam, que estava em cadastros e contas. Mudá-lo seria inconveniente. Não havia razão específica para mantê-lo. Mas havia também aquilo: o cadastro do microchip do Simba tinha aq...

Esse Olhar

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  Patrícia havia adotado gatos antes. Sabia o protocolo — a caixa de areia nova, a ração de transição, o quarto separado para os primeiros dias, a paciência com os esconderijos que todo gato novo precisava antes de decidir que o lugar era seguro. Havia feito isso três vezes. Sabia o que esperar. O que ela não esperava era o olhar. O Siamês tinha doze anos quando ela foi ao abrigo. Não havia planejado adotar um gato de doze anos — havia ido por outro motivo, entregar doação, e havia passado pelo corredor dos gatos idosos que ficava no fundo e que recebia menos visitas porque as pessoas que vinham adotar, em geral, procuravam filhotes ou adultos jovens. O corredor dos gatos idosos tinha uma qualidade de silêncio específica que Patrícia havia notado imediatamente. Ele estava numa gaiola no meio do corredor. Siamês. Pelo mais claro do que costuma ser nos mais jovens, o focinho levemente cinza. Os olhos azuis que a olharam quando ela parou na frente da gaiola com uma atenção que ela só ...

O que Ela Trouxe

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  Gisele havia começado a deixar comida em março. Não havia nenhuma decisão formal — havia o gato na calçada na frente da casa, havia o prato que sobrou do jantar, havia a lógica simples de que havia comida disponível e um animal que claramente precisava dela. A Siamesa havia comido na primeira noite com a pressa de quem não come regularmente. Havia ido embora antes que Gisele abrisse a porta para recolher o prato. Na segunda noite havia comido mais devagar. Na primeira semana havia passado a aparecer no mesmo horário — o que sugeria que havia feito um cálculo sobre a confiabilidade da fonte e havia decidido que valia a rotina. Gisele havia começado a deixar a comida antes desse horário. Pequena adaptação. A gata havia notado — Gisele tinha certeza disso — mas não havia demonstrado de forma que pudesse ser registrada. Três semanas. Todos os dias. A gata comia. Gisele observava pela janela. Nenhuma das duas havia cruzado nenhuma linha que não houvesse sido estabelecida tacita...

Ele Viu Ela De Longe

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  Marina havia passado dois anos cuidando dos gatos de rua do bairro. Não havia planejado isso — havia começado com um prato de comida para um gato que havia aparecido na frente da loja onde trabalhava e havia crescido com a lógica específica das coisas que começam pequenas e que a gente só percebe que cresceram quando olha para trás. Havia quinze gatos no circuito regular agora. Ela os conhecia todos — sabia os horários de cada um, os temperamentos, quais chegavam antes dos outros, quais esperavam que os outros fossem embora para comer. Havia aprendido a linguagem específica de quinze animais que nunca haviam sido domésticos mas que haviam aceitado uma forma de proximidade dentro de termos que eles mesmos haviam estabelecido. O Siamês era diferente dos outros. Não sabia dizer exatamente desde quando havia percebido a distinção. Era algo na forma que ele a esperava — não do lado da tigela, mas num ponto mais distante, como se o que ele aguardasse não fosse especificamente a co...

O Último Dia Na Ilha

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  Katarina havia chegado a Creta com uma semana de férias e a intenção firme de não trazer nada de volta além de fotografias e a memória do mar. Era a primeira viagem longa em dois anos. Ela e o namorado Mikael haviam escolhido a ilha por razões simples — sol, mar calmo, comida que não precisava de justificativa. Haviam alugado um apartamento pequeno numa vila de pescadores onde as ruas eram estreitas e os gatos eram parte da arquitetura tanto quanto os muros brancos e as janelas azuis. Os gatos de Creta eram assim — presentes, independentes, pertencentes ao lugar de um jeito que não era de nenhum dono específico mas que era completamente real. Katarina havia os notado nos primeiros dias com o interesse de turista. Havia tirado fotos. Havia continuado andando. O Siamês havia aparecido no quarto dia. Estava sentado na mureta em frente ao café onde eles tomavam o café da manhã todas as manhãs — um Siamês filhote, com as orelhas ainda levemente grandes para o rosto, olhando para a mes...