O Décimo Segundo Mês

 

Jéssica havia começado a deixar comida em maio.

Não era um plano — era uma resposta. A gata Siamesa havia aparecido no jardim dos fundos numa manhã e havia ficado parada perto da cerca olhando para a casa com aquela atenção específica que não era súplica mas que era alguma coisa que não deixava a Jéssica olhar para o outro lado com facilidade.

Ela havia posto um prato perto da cerca. A gata havia comido quando ela foi embora. Havia sumido antes que ela voltasse.

Esse era o padrão do primeiro mês.

A gata comia quando Jéssica não estava olhando. Quando Jéssica aparecia pela janela ela congelava. Quando Jéssica abria a porta dos fundos ela sumia no mato que havia no fundo do jardim e não voltava por horas.

Jéssica havia pesquisado. Havia lido sobre gatos ferais, sobre a diferença entre feral e assustado, sobre o tempo que podia levar para um animal que havia aprendido que humanos eram perigosos desaprender essa lição. Os textos falavam em meses. Alguns falavam em mais de um ano.

Ela havia decidido que ia ter paciência suficiente para qualquer que fosse o número.

No segundo mês a gata passou a comer enquanto Jéssica estava à vista — desde que Jéssica estivesse dentro de casa, separada pelo vidro da porta. Isso era progresso. Jéssica o anotou numa caderneta pequena que havia comprado sem saber por quê mas que havia se tornado o diário da situação.

Mês 2 — come com eu olhando pela janela. Não olha pra mim ainda.

No terceiro mês a gata havia parado de sumir quando Jéssica abria a porta — ficava na distância, mas ficava.

Mês 3 — fica quando abro a porta desde que eu não avance.

No quinto mês Jéssica havia tentado avançar dois passos. A gata havia recuado quatro. Ela havia escrito na caderneta: Recuou. Tudo bem.

No oitavo mês havia tentado algo diferente.

Em vez de colocar o prato e entrar, havia sentado nos degraus da porta dos fundos. Não havia olhado para a gata. Havia levado um livro. Havia ficado ali por quarenta minutos lendo com a postura de alguém que estava simplesmente no jardim por razões próprias que não tinham nada a ver com o Siamês que estava a três metros olhando.

A gata havia comido enquanto ela estava ali.

Não havia se aproximado. Mas havia comido sem esperar ela ir embora.

Mês 8 — comeu com eu do lado. Não me olhou. Mas comeu.

No décimo mês a gata havia começado a olhar para ela. Não por muito tempo — um olhar rápido, avaliativo, do tipo de quem está atualizando uma conclusão anterior sem comprometer a nova com certeza ainda.

No décimo primeiro mês havia ficado a um metro e meio enquanto Jéssica estava sentada nos degraus.

No décimo segundo mês Jéssica estava sentada nos degraus com o livro quando a gata caminhou devagar até a frente dela, ficou parada por um momento, e encostou o focinho na mão aberta que Jéssica havia colocado no chão há semanas, toda vez, sem expectativa declarada.

Jéssica não se mexeu.

A gata cheirou. Levantou a cabeça. Olhou para ela.

Jéssica ficou olhando de volta sem piscar.

Depois a gata caminhou dois passos e se sentou ao lado da mão dela — não em cima, ao lado. Ficou ali por quatro minutos antes de ir embora para o mato.

Jéssica foi para dentro.

Abriu a caderneta.

Mês 12 — ela veio.

Ficou olhando para as três palavras por um tempo.

Depois escreveu embaixo, com letra menor:

Valeu cada mês.

A gata levou mais seis meses para entrar em casa pela primeira vez.

Jéssica havia esperado.

Havia sempre esperado.

Era a única coisa que havia prometido desde o começo — que não ia apressar o que precisava do tempo que precisava.

A caderneta tem vinte e três páginas preenchidas.

A gata dorme no sofá agora.

No lugar que ela mesma escolheu.

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