O Último Dia Na Ilha
Katarina havia chegado a Creta com uma semana de férias e a intenção firme de não trazer nada de volta além de fotografias e a memória do mar.
Era a primeira viagem longa em dois anos. Ela e o namorado Mikael haviam escolhido a ilha por razões simples — sol, mar calmo, comida que não precisava de justificativa. Haviam alugado um apartamento pequeno numa vila de pescadores onde as ruas eram estreitas e os gatos eram parte da arquitetura tanto quanto os muros brancos e as janelas azuis.
Os gatos de Creta eram assim — presentes, independentes, pertencentes ao lugar de um jeito que não era de nenhum dono específico mas que era completamente real.
Katarina havia os notado nos primeiros dias com o interesse de turista. Havia tirado fotos. Havia continuado andando.
O Siamês havia aparecido no quarto dia.
Estava sentado na mureta em frente ao café onde eles tomavam o café da manhã todas as manhãs — um Siamês filhote, com as orelhas ainda levemente grandes para o rosto, olhando para a mesa deles com a atenção de quem havia avaliado a situação e havia chegado a uma conclusão sobre quem naquela mesa era mais provável de ser favorável.
Havia ido até Katarina.
Ela havia dado um pedaço de pão.
Mikael havia dito que não devia alimentar os gatos da rua.
O filhote havia pulado no colo de Katarina e ficado.
Nos três dias seguintes o filhote havia estado no café todas as manhãs. Havia descoberto o apartamento — Katarina nunca soube como, mas numa tarde havia encontrado ele dormindo na cama como se o apartamento tivesse sido dele antes deles chegarem. Havia aprendido o horário em que eles voltavam das praias. Havia estabelecido, em três dias, uma rotina que pressupunha a presença deles.
No penúltimo dia Katarina havia ficado um tempo sentada com ele no terraço do apartamento.
Mikael havia vindo se sentar do lado.
Os dois haviam ficado ali em silêncio por um tempo.
— Não dá pra levar — disse Mikael.
— Eu sei — disse Katarina.
— O voo é amanhã.
— Eu sei.
O filhote estava no colo dela olhando para o mar.
No dia seguinte eles haviam feito as malas. Haviam ido ao café pela última vez. O filhote havia estado lá. Katarina havia ficado sentada por mais tempo do que o necessário para um café da manhã. Mikael havia ficado do lado sem apressar.
Haviam ido para o aeroporto.
Haviam voado para Helsinki.
Três dias depois Katarina havia comprado uma passagem de volta para Creta. Sozinha.
Mikael havia a levado ao aeroporto sem comentar sobre a lógica da situação porque havia algumas lógicas que não precisavam de comentário.
Em Creta ela havia ido à câmara veterinária local, havia explicado a situação, havia iniciado o processo de documentação para transporte internacional de animal. Havia levado o filhote ao veterinário para vacinas, exames, passaporte animal. Havia ficado em contato com as autoridades veterinárias da Finlândia sobre os requisitos de entrada.
O processo havia levado quatro meses.
Quatro meses de formulários, de ligações internacionais, de custos que ela havia calculado e decidido não calcular mais, de um filhote Siamês numa ilha grega que havia continuado aparecendo no café todas as manhãs enquanto uma funcionária da vila lhe dava comida temporariamente como favor pessoal para a mulher finlandesa que ligava toda semana para verificar.
O filhote havia chegado a Helsinki em dezembro.
Katarina havia ido ao aeroporto de carga com Mikael.
Quando a caixa de transporte havia sido aberta o filhote havia saído, olhado para o ambiente novo, olhado para Katarina.
Havia ido até ela.
Com a mesma naturalidade de quem havia subido no colo no café da mureta branca de Creta num dia de sol como se aquilo fosse simplesmente o que acontecia a seguir.
Mikael havia ficado olhando.
— Quatro meses — ele disse.
— Quatro meses — ela disse.
O filhote havia se instalado entre os dois no banco de trás do carro para casa.
Como alguém que havia feito uma viagem longa e havia chegado onde havia planejado chegar desde o começo.
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