O que Ela Trouxe

 

Gisele havia começado a deixar comida em março.

Não havia nenhuma decisão formal — havia o gato na calçada na frente da casa, havia o prato que sobrou do jantar, havia a lógica simples de que havia comida disponível e um animal que claramente precisava dela.

A Siamesa havia comido na primeira noite com a pressa de quem não come regularmente. Havia ido embora antes que Gisele abrisse a porta para recolher o prato.

Na segunda noite havia comido mais devagar.

Na primeira semana havia passado a aparecer no mesmo horário — o que sugeria que havia feito um cálculo sobre a confiabilidade da fonte e havia decidido que valia a rotina.

Gisele havia começado a deixar a comida antes desse horário. Pequena adaptação. A gata havia notado — Gisele tinha certeza disso — mas não havia demonstrado de forma que pudesse ser registrada.

Três semanas. Todos os dias. A gata comia. Gisele observava pela janela. Nenhuma das duas havia cruzado nenhuma linha que não houvesse sido estabelecida tacitamente pela outra.

Na manhã de uma quarta-feira Gisele abriu a porta da frente para pegar o jornal.

A Siamesa estava na soleira.

Isso era diferente — havia sempre comido na calçada, nunca havia vindo até a porta. Gisele ficou parada na entrada.

A gata a olhou.

Depois deu um passo para dentro.

Gisele recuou um passo instintivamente. A gata entrou mais um passo. Parou. Olhou para trás.

Gisele olhou para onde a gata havia olhado.

Na calçada, enfileirados, havia quatro filhotes Siameses.

Pequenos — devia ter três, quatro semanas, ainda no estágio em que os movimentos são exagerados e imprecisos e em que o mundo ainda tem uma escala que vai mudar. Estavam sentados na calçada olhando para dentro da casa com a atenção de quem estava aguardando alguma coisa mas não sabia exatamente o quê.

Gisele ficou parada na porta por um longo tempo.

A gata estava dentro. Os quatro filhotes estavam do lado de fora. A linha entre esses dois lugares era a entrada da casa de Gisele.

A gata a olhou de novo.

Gisele abriu a porta completamente.

A gata foi até os filhotes, cheirou cada um, e começou a conduzi-los para dentro um por um. Não os carregou — os chamou, com um som baixo que cada filhote respondeu trotando para dentro com aquela instabilidade de quem ainda está aprendendo a coordenar as quatro patas.

O último filhote parou na soleira. Olhou para fora. Olhou para dentro. Olhou para a mãe que estava esperando.

Entrou.

Gisele fechou a porta.

Ficou parada na entrada da própria casa com uma gata Siamesa e quatro filhotes que havia se tornado — nos últimos quatro minutos — a realidade do seu dia de quarta-feira.

Foi buscar água.

Foi buscar a ração que havia sobrado de quando tinha tido um gato, anos atrás, guardada numa prateleira do armário da cozinha por uma razão que ela nunca havia articulado mas que agora fazia sentido.

Depois ficou parada na sala olhando para as cinco criaturas que haviam entrado na sua casa porque a mãe havia decidido que as três semanas de comida diária haviam sido prova suficiente de que o lugar era seguro para os seus filhotes.

Era uma lógica que Gisele não havia pedido para fazer parte.

Mas que havia feito sentido imediatamente quando entendeu.

Ela havia passado três semanas provando que era confiável.

A gata havia chegado à conclusão que merecia.

E havia trazido o que havia de mais importante.

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