A Carta dos Doze

A Chama chegou no 7º Grupamento de Bombeiros numa tarde de novembro como a maioria das coisas que mudam a rotina de um lugar — sem avisar, de forma irreversível, e com uma aparência que não anunciava a dimensão do que estava por vir.

Era um filhote Siamês. Magro. Com os olhos ainda com aquela proporção exagerada da primeira infância felina. Sentou na frente da porta lateral do grupamento e miou uma vez com a precisão de quem testou o volume e achou adequado.

O bombeiro Edson, que estava na ronda do pátio, ouviu.

Abriu a porta.

O filhote entrou.

A cadeia de eventos que se seguiu foi menos uma série de decisões e mais uma série de constatações — constatações de que o filhote havia ficado, de que havia comido, de que havia encontrado o lugar quente atrás do painel de comunicações, de que no dia seguinte ainda estava lá, de que ninguém tinha vontade de que não estivesse.

O sargento Lima perguntou na reunião de turno se alguém havia verificado se o animal tinha dono.

Verificaram. Não tinha.

Perguntou se alguém tinha alergia.

Ninguém tinha.

Perguntou quem ia ficar responsável.

Os doze bombeiros do turno se entreolharam.

— Todos — disse o Edson.

Ninguém discordou.

A Chama cresceu no 7º Grupamento com a rotina de alguém que havia entendido o ambiente e se adaptado a ele. Sabia quando havia chamada — acordava antes do alarme, ia para perto do caminhão, ficava enquanto a equipe saía e estava no mesmo lugar quando voltavam. Sabia os turnos — tratava os bombeiros do turno B com a mesma familiaridade dos do turno A depois de duas semanas, o que os do turno A levaram um tempo para aceitar mas acabaram reconhecendo como justo. Sabia quando havia treinamento — ficava no pátio assistindo com a atenção de quem está fazendo anotações mentais.

Dois anos depois uma denúncia anônima chegou à Secretaria Municipal de Saúde reportando a presença de animal sem registro em instalação pública de emergência. A secretaria enviou uma notificação ao 7º Grupamento determinando a remoção do animal em um prazo de quinze dias.

O comandante Ferreira recebeu a notificação numa sexta à tarde.

Na segunda de manhã ele tinha doze cartas na mesa.

Uma de cada bombeiro do efetivo regular dos dois turnos. Cada carta era diferente das outras — tinham sido escritas separadamente, sem combinação, em casa, nos dias do fim de semana. Algumas eram curtas e diretas. Uma delas tinha três páginas. Uma tinha sido escrita à mão com letra que o comandante reconheceu como a do bombeiro Jacaré, que era conhecido por nunca escrever nada à mão se houvesse alternativa, e que havia escrito à mão porque, segundo ele depois explicou, havia achado que digitado parecia menos sério.

O comandante Ferreira leu as doze.

Depois foi até o arquivo, tirou o papel timbrado do grupamento, e escreveu a décima terceira.

As treze cartas foram entregues à Secretaria Municipal numa pasta identificada como Manifestação Formal do Efetivo — 7º Grupamento.

O secretário leu.

Três dias depois chegou uma resposta determinando que o caso seria tratado como exceção administrativa mediante regularização veterinária e registro formal do animal como mascote oficial do grupamento.

O Edson levou a Chama ao veterinário na sexta seguinte.

Voltou com a carteira de vacinação, o certificado de registro, e um crachá que a atendente havia feito por conta própria com a foto da Chama e o cargo: Bombeira Honorária — 7º Grupamento.

O crachá foi colocado na parede ao lado dos crachás do efetivo regular.

Ninguém votou.

Era o tipo de coisa que não precisava.

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