A Encomenda Errada

Juliana não estava esperando nenhuma encomenda.

Era uma quarta-feira comum de outubro, daquelas em que o dia passa sem deixar marca. Ela havia chegado do trabalho mais cedo que o normal, estava de meia, com o cabelo ainda preso do jeito descuidado do expediente, esquentando sobras no fogão quando a campainha tocou.

O entregador já estava descendo os degraus quando ela abriu a porta. Só a caixa havia ficado — média, marrom, com o endereço dela escrito à mão numa letra que ela não reconheceu. Ela olhou pro rótulo duas vezes tentando lembrar se havia comprado algo que esqueceu. Não havia.

Pegou a caixa. Fechou a porta com o pé.

Colocou no balcão da cozinha e foi buscar uma tesoura.

A primeira coisa que ela notou foi que a caixa tinha furos. Pequenos, perfurados com algo pontiagudo em intervalos regulares pelos quatro lados — discretos o suficiente pra passar despercebidos mas suficientes pra deixar o ar entrar. Ela parou com a tesoura na mão.

A segunda coisa que ela notou foi o movimento.

Devagar. Ela cortou a fita adesiva com cuidado. Abriu as abas da caixa uma por uma como se algo dentro pudesse quebrar. E encontrou um Siamês de olhos azuis sentado sobre um pedaço de cobertor azul claro, olhando pra ela com aquela expressão de quem acabou de acordar de um sonho comprido e ainda está decidindo se o novo lugar presta.

Juliana ficou parada por um tempo que ela não soube medir.

O gato piscou.

Ela piscou de volta.

Do lado do cobertor havia uma tigela pequena de plástico cor-de-rosa e um saco zip com ração. E embaixo de tudo, dobrado em quatro, um envelope branco com uma palavra escrita na frente em caneta azul:

Pra quem abrir.

Ela pegou o envelope com os dedos que ainda seguravam a tesoura. Abriu com cuidado. Tirou uma folha de papel de carta dobrada — daquele papel levemente amarelado que as pessoas mais velhas ainda guardam em gavetas.

"Meu nome é Geraldo. Tenho 79 anos e moro no apartamento 304 do edifício Jardim das Acácias, na rua ao lado da sua.

Esse é o Príncipe. Ele tem oito anos e é saudável — as vacinas estão em dia e os papéis estão dentro do envelope menor que está embaixo do cobertor.

Fui internado hoje de manhã. Meu filho mora fora do país e não tem como vir. Não tenho mais ninguém aqui.

Eu vi você uma vez parar na calçada pra deixar um gato de rua comer do seu lanche. Você não sabe que eu vi. Mas eu vi.

Não tenho como saber quanto tempo vou ficar internado. Ou se vou voltar.

Por isso escolhi você.

Cuide bem dele. Ele dorme com a barriga pra cima quando está confortável. Não gosta de barulho alto mas gosta de televisão ligada baixinho. Come duas vezes por dia e bebe muita água.

Se eu voltar, volto buscar ele pessoalmente e te explico tudo direito.

Se não voltar — obrigado por ter sido o tipo de pessoa que para na calçada.

Geraldo."

Juliana leu a carta duas vezes sentada no chão da cozinha.

Não se lembrava do episódio da calçada. Não conseguia imaginar que alguém havia guardado aquela cena na memória por tempo suficiente pra tomar uma decisão assim. Que alguém havia planejado aquela caixa, aquele cobertor, aquela tigela cor-de-rosa, aquele envelope — com os papéis do veterinário dobrados dentro, como ele havia dito — em algum momento entre a internação e a inconsciência, ou antes, num dia em que já sabia que o tempo estava apertando.

O Príncipe saiu da caixa sem pressa.

Cheirou o chão da cozinha em semicírculo, foi até a porta da sala, olhou pra dentro, voltou. Foi até a tigela de água que Juliana havia colocado no chão sem perceber que estava fazendo isso. Bebeu. Voltou pra cozinha, olhou pra ela sentada no chão com a carta na mão, e foi se deitar do lado dela com a barriga pra cima.

Ela ficou olhando pra ele por um longo tempo.

Depois pegou o telefone e começou a ligar pros hospitais da região.

Encontrou Geraldo no terceiro. Ele estava estável — uma cirurgia no coração, complicada mas bem sucedida. A enfermeira disse que ele havia chegado sozinho de taxi na manhã anterior com uma mochila pequena e pedido pra deixar um bilhete com a recepção caso alguém ligasse perguntando por ele.

O bilhete dizia apenas: O Príncipe chegou bem.

Juliana foi visitar Geraldo na semana seguinte. Levou foto do gato dormindo de barriga pra cima no sofá. Geraldo olhou pra foto por um longo tempo sem falar. Depois disse que era exatamente assim que ele dormia quando estava confortável.

Ele recebeu alta cinco semanas depois.

Foi buscar o Príncipe pessoalmente, como havia prometido na carta.

Ficou na porta de Juliana por quase uma hora — tomando café, mostrando fotos antigas do gato, contando histórias que ela ouvia sem pressa. Quando foi embora com o Príncipe no caixote ela ficou na porta olhando eles descerem a rua.

Na manhã seguinte a campainha tocou de novo.

Era Geraldo. Sem o gato. Com um pote de doce de leite caseiro e um papel dobrado.

"Ele escolheu ficar com você. Toda vez que tentei colocar ele no caixote ele saiu. Acho que ele sabe de coisas que eu ainda estou aprendendo.

Obrigado por ter atendido a porta."

Juliana ainda tem as duas cartas.

Guardadas juntas na gaveta da cozinha — do lado das contas pagas e das coisas que importam ficar.

O Príncipe dorme de barriga pra cima quando está confortável.

Ele está sempre confortável.

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