A Grelha Mais Quente
Valdir começava o turno às quatro da manhã.
Não porque gostava — ninguém gosta de quatro da manhã com a convicção de quem escolheu isso. Mas era o turno que havia sobrado quando entrou na empresa oito anos atrás, e com o tempo o corpo havia negociado uma trégua com o horário: dormia às oito da noite, acordava às três, comia alguma coisa em pé na cozinha, pegava o ônibus às três e quarenta.
A cidade às quatro da manhã era um lugar diferente da cidade que as pessoas conheciam.
Valdir conhecia essa versão intimamente — as ruas antes do barulho, as calçadas antes dos passos, a luz dos postes que tinha uma cor diferente quando não havia nada competindo com ela. Havia uma honestidade nessa cidade de madrugada que ele havia aprendido a apreciar como se aprecia uma coisa que não tem audiência: em silêncio e sem precisar explicar pra ninguém.
O gato apareceu numa terça-feira de maio.
Valdir estava no terceiro quarteirão do percurso — a Rua Cel. Bento Bicudo, que tinha uma descida suave e árvores que deixavam folhas secas acumuladas nos cantos das calçadas — quando viu o Siamês saindo de trás de uma lixeira e sentando na frente do seu carrinho com uma autoridade que sugeria que o carrinho havia invadido o espaço dele e não o contrário.
Valdir parou. O gato olhou pra ele.
Valdir continuou. O gato acompanhou.
Não ao lado — atrás. A uma distância constante de uns três metros, trotando no mesmo ritmo do carrinho, parando quando o carrinho parava, continuando quando continuava. Como alguém seguindo uma procissão que não tem pressa de acabar.
Foram três quarteirões assim.
Depois o gato sentou num canteiro, bocejou com uma elaboração que Valdir achou excessiva, e ficou lá enquanto o carrinho dobrava a esquina.
Na quarta-feira o gato estava esperando na entrada da Rua Cel. Bento Bicudo.
Valdir passou a chamá-lo de Vassourinha, que era o tipo de nome que só fazia sentido às quatro da manhã e que ele nunca repetiu em voz alta para ninguém com medo de ter que explicar.
Com o tempo Valdir aprendeu os hábitos do gato assim como o gato havia aprendido os dele. O Vassourinha gostava da parte plana da rua mais do que da descida. Parava sempre em frente à padaria fechada para cheirar o ar que escapava pela fresta da porta. Desviava sistematicamente das poças d'água com um exagero que não era necessário dado o tamanho delas mas que ele mantinha por princípio.
E no inverno — quando as noites de madrugada ficavam frias de um jeito que entrava pelo uniforme — o Vassourinha buscava as grelhas de ventilação que havia na calçada em frente ao prédio comercial do meio da rua, onde o ar quente do sistema de circulação subia pelo asfalto das três às cinco da manhã.
Valdir notou isso numa noite de julho.
O gato havia parado na grelha, sentado em cima dela, e ficado com os olhos fechados e o pelo levemente eriçado pelo calor que subia. A expressão de um ser atingindo temperatura ideal.
Na noite seguinte Valdir calculou o percurso para que o intervalo de descanso — os dez minutos que ele tinha direito a cada hora e meia — caísse na frente da grelha do prédio.
Parou o carrinho. Tirou a garrafa térmica do compartimento lateral. Se sentou no meio-fio. O Vassourinha sentou na grelha a um metro de distância.
Tomou o café.
O gato absorveu o calor da grelha.
Dois anos assim. Toda noite de inverno o intervalo caindo no mesmo lugar. Valdir nunca contou isso pra ninguém porque sabia que havia uma certa loucura gentil em reorganizar um percurso de trabalho para que um gato de rua ficasse mais quente, e que essa loucura era do tipo que ficava melhor guardada entre as quatro paredes da madrugada.
Numa noite de agosto o fiscal de rota apareceu de surpresa no meio do percurso fazendo a verificação. Viu Valdir sentado no meio-fio no intervalo com a garrafa térmica na mão e o gato na grelha ao lado.
Ficou olhando por um momento.
— É seu? — perguntou apontando pro gato.
— Não — disse Valdir. — É da rua.
O fiscal olhou pro gato. O gato olhou pro fiscal.
— Tá bom — disse o fiscal. E foi embora.
Valdir tomou o resto do café.
O Vassourinha continuou na grelha.
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