A Mensagem
Leonardo estava no corredor da emergência cardiológica havia quarenta minutos quando o médico disse os números em voz alta.
224 por 110.
Havia uma escala para essas coisas e Leonardo sabia onde 224 por 110 ficava nessa escala porque havia pesquisado o assunto com a atenção de quem tem histórico familiar e sabe que a atenção é parte do plano de prevenção. Ficava na parte da escala onde os adjetivos eram sérios.
Ele estava deitado na maca com o cateter no braço e o monitor ao lado e a enfermeira chamada Vera que havia assumido o plantão há duas horas e que tinha o tipo de eficiência calma que Leo havia aprendido em quarenta minutos a reconhecer como competência real e não postura.
— Você tem alguma coisa que te ajude a relaxar? — ela perguntou enquanto ajustava o monitor. — Respiração, visualização, alguma coisa assim.
Leonardo ficou olhando pro teto por um momento.
— Tenho o meu gato — ele disse.
Era uma resposta estranha para a pergunta. Ela não havia perguntado sobre o gato. Mas era o que havia chegado primeiro.
O Faroeste era um Siamês de seis anos que havia entrado na vida de Leonardo de um jeito que só fazia sentido em retrospecto — uma noite em que o apartamento havia parecido pequeno demais de um jeito que não tinha a ver com os metros quadrados, uma decisão que havia sido tomada no celular às onze da noite num site de adoção com o impulso de quem está fazendo algo concreto para resolver um sentimento abstrato.
O Faroeste havia chegado na semana seguinte.
Nos seis anos subsequentes havia se tornado — sem que Leonardo tivesse nomeado assim em voz alta — o centro de gravidade doméstico da vida dele. A coisa que era constante quando outras coisas não eram. A presença que estava lá quando ele chegava, que ficava ao lado quando ele estava mal, que tinha opiniões sobre a disposição dos móveis que expressava através de um sistema de preferências físicas impossível de ignorar.
Leonardo pediu o celular para a Vera.
Ela o olhou por um momento.
— Pra ligar para alguém?
— Pra mandar uma mensagem — ele disse. — Sobre o meu gato.
Ela lhe deu o celular sem comentar.
Leonardo digitou para o vizinho do apartamento de baixo — o Jorge, que tinha a chave spare que havia sido entregue exatamente para situações assim, que eram menos específicas na previsão original mas que se encaixavam na categoria.
A mensagem dizia: Estou na emergência. Infarto possível. Pode cuidar do Faroeste enquanto estou aqui? Ração no armário acima do forno. Tigela azul.
Enquanto digitava ele pensou no Faroeste.
Não de um jeito ansioso — de um jeito específico. Pensou na forma que o gato tinha de aparecer na cozinha exatamente quando ele chegava do trabalho, antes mesmo de ele abrir a porta completamente, como se houvesse algum sensor que captava a chave na fechadura a um nível que os humanos não alcançavam. Pensou no peso do gato nos pés da cama. No som do ronronar nas noites em que o apartamento ficava quieto de um jeito que antes tinha textura diferente.
Pensou em como havia sido grato por aquela presença constante de seis anos que não pedia explicação e não oferecia julgamento e estava simplesmente lá.
A Vera disse: — Sr. Leonardo, pode continuar fazendo o que está fazendo.
Ele olhou para o monitor.
188 por 97.
Havia descido.
Ele não havia percebido que havia descido.
Vera estava olhando pro monitor com uma expressão que ele não soube classificar completamente.
— O que eu estava fazendo? — ele perguntou.
— Não sei exatamente — ela disse. — Mas continue.
Ele olhou pro celular.
A mensagem para o Jorge havia sido enviada. Havia uma resposta — claro, já vou lá, fica tranquilo.
Leonardo ficou olhando pro teto de novo.
Pensou no Faroeste.
No sensor da porta. No peso nos pés da cama. Na tigela azul.
O monitor continuou descendo.
Quando recebeu alta quatro dias depois Leonardo entrou no apartamento e o Faroeste estava na entrada — não nos pés da cama, não na cozinha. Na entrada. Como se soubesse que o retorno precisava ser recebido antes de qualquer outra coisa.
Leonardo ficou parado na entrada por um longo tempo com a mala de hospital na mão.
O Faroeste olhou pra ele.
Leonardo colocou a mala no chão.
Abaixou.
O Faroeste foi até ele com a lentidão de quem tem certeza do destino e encostou a cabeça na palma da mão dele.
Leonardo ficou agachado na entrada do apartamento por mais tempo do que seria necessário.
Mas às vezes o necessário não é o que mede essas coisas.
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