A Patinha No Joelho
A casa tinha um nome oficial mas as mulheres que passavam por ela geralmente não usavam o nome oficial.
Chamavam de a casa. Do tipo de lugar que é simples de descrever e impossível de explicar completamente para quem não precisou de um lugar assim — um endereço seguro para mulheres saindo de situações de exploração e tráfico, gerido por uma organização que há anos fazia o trabalho quieto de reconstruir vidas que haviam sido deliberadamente destruídas.
A Karen, que dirigia a casa, havia dito numa entrevista que a coisa mais difícil nesse trabalho não era a burocracia nem o financiamento nem os formulários que não acabavam.
Era o silêncio.
As mulheres chegavam com um silêncio específico — não o silêncio de paz, o silêncio de quem aprendeu que ficar quieta era mais seguro do que falar. Desaprender esse silêncio levava tempo. Não havia atalho. Havia presença, havia paciência, havia as sessões com as terapeutas e as refeições compartilhadas e a construção lenta de um ambiente onde o silêncio deixava de ser necessário como proteção.
O Marley havia chegado do abrigo em março.
Era um Siamês de dois anos que havia sido resgatado da rua e que havia passado por triagem para o programa de terapia assistida por animais que a organização havia iniciado como projeto piloto. A triagem havia avaliado temperamento, reação a ambientes novos, tolerância ao contato físico imprevisível.
O Marley havia passado em todos os critérios.
Havia chegado à casa numa tarde de quinta-feira numa caixa de transporte que a Karen havia aberto na sala de estar com três das mulheres presentes.
Ele havia saído da caixa, havia olhado para o ambiente, havia olhado para as três mulheres sentadas no sofá.
Havia ido até a que estava mais quieta.
Não era a mais próxima — havia outra sentada mais perto da caixa. Havia ido até a mulher mais ao fundo, que havia encostado mais no sofá quando a caixa havia sido aberta, que havia cruzado os braços levemente.
Havia subido no sofá.
Havia colocado uma pata no joelho dela.
Havia ficado.
A mulher havia olhado para a pata. Havia olhado para o gato. Havia descruzado os braços devagar.
A Karen havia observado do outro lado da sala sem se mover.
Nos meses seguintes o Marley havia desenvolvido o que a equipe da casa só conseguia descrever como um sistema — havia uma forma que ele tinha de identificar quem precisava mais naquele dia, quem estava mais recolhida, quem havia chegado mais perto do choro mas não havia chegado. Ia até essa pessoa. Ficava do lado. Não pedia atenção — oferecia presença.
Havia uma mulher que não havia falado em sessão em três semanas. Na manhã do vigésimo segundo dia o Marley havia subido na sua cama e ficado do lado dela. À tarde ela havia falado pela primeira vez.
Havia uma mulher que havia escrito uma música sobre ele — dois versos que ela havia cantado numa tarde de chuva para as outras na sala de estar. A Karen havia ficado parada na entrada da cozinha ouvindo.
Em dezembro a Cats Protection havia nomeado o Marley Gato Nacional do Ano.
A Karen havia recebido a notícia por email e havia imprimido e colocado na geladeira da casa.
Nenhuma das mulheres que estavam na casa naquele mês sabia o que era o Gato Nacional do Ano.
A Karen havia explicado.
Uma delas havia dito: — Faz sentido.
E havia voltado para o que estava fazendo.
O Marley estava no sofá.
Com uma pata no joelho de alguém.
Como sempre.
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