A Segunda Vela
Dona Perpétua acendia a vela todo dia às dezoito horas.
Não era uma obrigação religiosa formal — não havia nenhum padre que tivesse pedido, nenhum voto que tivesse feito. Era um hábito que havia começado quando o marido ficou doente e que havia continuado depois que ele foi embora, e que havia se tornado com o tempo uma daquelas coisas que existem além da razão que as originou — como certas músicas que a gente continua ouvindo mesmo depois que a pessoa que apresentou já não está mais.
A capelinha ficava a duzentos metros da sua casa. Uma construção pequena de pedra com uma porta de madeira que chiava, um altar simples, três bancos de madeira dura que machucavam os joelhos mas que ela usava assim mesmo porque ajoelhar no banco parecia errado. Ela chegava, acendia a vela, ficava por vinte minutos, ia embora.
Doze anos assim.
O gato apareceu numa noite de julho.
Ela saiu da capelinha depois dos vinte minutos e ele estava no degrau — um Siamês que ela nunca havia visto no bairro, sentado com a postura ereta dos gatos que estão prestando atenção em algo específico. Ela passou por ele. Ele não se moveu.
Na noite seguinte ele estava no degrau antes dela chegar.
Na terceira noite ela parou na frente dele por um momento antes de entrar. Ele olhou pra ela. Ela olhou pra ele. Depois ela entrou e ele ficou no degrau.
Isso durou três semanas — ela dentro, ele fora, os vinte minutos, a vela, o chiado da porta ao sair.
Numa noite de agosto ela entrou na capelinha, acendeu a vela de sempre, e depois, sem ter planejado, pegou uma segunda vela do suporte, acendeu também, e colocou do lado da primeira.
Não rezou nada específico por aquela segunda vela. Só a acendeu.
Quando saiu o gato estava no degrau como sempre. Ela ficou parada na porta por um momento.
— Pra você — ela disse em voz baixa, sem jeito. Como alguém que não está acostumado a falar com gatos mas que achou que devia.
O gato piscou uma vez.
Ela foi pra casa.
A vizinha Eunice foi a primeira a perguntar sobre a segunda vela — ela passava pela capelinha toda dia a caminho da farmácia e havia notado a mudança. Dona Perpétua explicou com a economia de palavras de quem não quer fazer uma história grande de uma coisa simples.
Eunice ficou quieta por um momento.
Depois disse: — Minha mãe dizia que os animais veem o que a gente não vê.
Dona Perpétua não respondeu porque não sabia o que responder e porque havia coisas que ficavam melhor sem resposta.
O gato continuou aparecendo todo dia às dezoito horas. Com chuva, com frio, com o calor de fevereiro que fazia o ar tremer sobre o asfalto. Sempre no degrau, sempre com aquela postura de quem chegou pra um compromisso que levava a sério.
Dona Perpétua continuou acendendo duas velas.
Num domingo de outubro o padre da paróquia passou pela capelinha e viu as duas chamas pelo vão da porta. Entrou, olhou, viu o gato no degrau lá fora. Ficou parado na porta por um momento.
Depois foi falar com Dona Perpétua depois da missa.
— Soube que você acende duas velas agora.
— Acendo.
— Pra quem é a segunda?
Ela pensou por um momento.
— Pra quem ainda não tem ninguém acendendo uma.
O padre não disse mais nada.
Na semana seguinte havia um pequeno pires com água e um prato com comida ao lado do degrau da capelinha. Ninguém assumiu ter colocado.
Dona Perpétua achou que devia ter sido o padre.
O padre achou que devia ter sido ela.
Os dois nunca resolveram a questão.
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