Do Lado de Fora do Vidro

Fernanda havia morado sozinha por quatro anos e havia aprendido que o silêncio de um apartamento tem qualidades diferentes dependendo da hora do dia.

De manhã era um silêncio produtivo — ela fazia café, organizava o dia, o silêncio era instrumento. À tarde era neutro. À noite, especialmente no inverno quando a rua ficava quieta mais cedo e as janelas se fechavam e o mundo encolhia para dentro das paredes, tinha outra textura — mais espessa, mais presente, do tipo que ocupa espaço sem ser convidado.

Ela havia aprendido a conviver.

Numa manhã de julho — era sábado, a chuva havia caído na sexta e deixado o bairro coberto com uma camada de geada que o sol da manhã ainda não havia dissolvido — ela estava na cozinha fazendo café quando ouviu.

Um som. Baixo. Repetitivo.

Arranhando no vidro da janela da área de serviço.

Ela ficou parada escutando. O som veio de novo — arranhado, pausado, arranhado de novo, com uma cadência que era diferente de chuva e diferente de vento e diferente de qualquer outra coisa que a janela havia produzido em quatro anos.

Ela foi até a janela.

Do lado de fora, em pé na geada da soleira estreita que havia entre o vidro e a grade de proteção, havia um Siamês.

Ela ficou olhando.

Ele a olhou de volta.

Ela notou três coisas em rápida sucessão. Primeiro: o pelo era fino demais para o frio que estava. Segundo: ele estava tremendo, mas de um jeito contido, como alguém que aprendeu a tremer sem mostrar. Terceiro: tinha levantado a pata dianteira direita do frio da soleira gelada e estava equilibrado em três patas.

Ele a olhou com aquela expressão Siamesa que é difícil de descrever para quem não conhece a raça e que Fernanda depois tentou explicar para a amiga como não estava pedindo — estava informando.

Ela ficou parada na janela por um momento.

Do outro lado do vidro o Siamês a olhou.

Ela abriu a janela.

Ele entrou.

Não ficou na área de serviço. Passou pela cozinha, pelo corredor, chegou à sala, foi direto ao tapete embaixo do aquecedor elétrico que Fernanda havia ligado meia hora antes, deu uma volta, deitou.

Fechou os olhos.

Fernanda ficou parada na entrada da sala olhando para um Siamês desconhecido que havia acabado de escolher o ponto mais quente do apartamento dela com uma eficiência que ela levou um momento para processar.

Levou água. Ele bebeu muito — o que confirmou o que ela já havia começado a suspeitar. Levou os restos de frango cozido que havia no prato do almoço de quinta. Ele comeu devagar mas completamente.

Depois dormiu por oito horas seguidas.

Fernanda trabalhou na mesa ao lado do tapete o dia inteiro.

À tarde, enquanto ele ainda dormia, ela foi até a farmácia mais próxima e comprou uma delas que as farmácias vendiam ao lado dos produtos de higiene — a caixa azul com a seringa de soro fisiológico para olhos que ela havia visto na prateleira sem nunca imaginar que fosse precisar. Também comprou gaze. Também comprou pomada antibiótica porque tinha um arranhado na pata levantada que ela havia notado quando limpou com cuidado enquanto ele dormia e que ele havia deixado sem reagir.

No dia seguinte levou ao veterinário.

Desnutrição moderada, infecção de pele na pata, temperatura abaixo do normal mas controlável. Tratável. Nenhum microchip.

— Você vai ficar com ele? — perguntou o veterinário.

Fernanda olhou para o gato na mesa de exame.

Ele a olhou.

— Ele já decidiu — ela disse.

O veterinário anotou no prontuário.

Ela o chamou de Julho.

Pelo mês em que ele havia batido na janela com a pata gelada e ela havia aberto.

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