Do Outro Lado do Muro
Dona Sônia fugia sempre pelo mesmo lugar.
O buraco não era grande — uma abertura na base do muro do jardim dos fundos onde o reboco havia cedido com o tempo e ninguém havia consertado ainda. Ela era pequena, Dona Sônia. Setenta e oito anos, quarenta e nove quilos, mãos que lembravam pássaros pousados. Ela cabia.
A equipe do Lar São Francisco havia tentado tudo. Câmera no corredor. Campainha na porta do jardim. Uma funcionária designada especificamente para os turnos em que Dona Sônia estava mais agitada. Ela sempre achava um jeito. Sempre acabava no jardim dos fundos. E sempre — invariavelmente, sem exceção — ia até o mesmo canto do muro e ficava lá.
Sentada no chão às vezes. Em pé com as mãos na pedra outras vezes.
Sempre no mesmo lugar.
A demência de Dona Sônia era severa. Ela não reconhecia as filhas. Não sabia o próprio nome quando perguntavam. Os dias bons eram aqueles em que ela ficava tranquila e olhava pela janela sem o olhar vazio que às vezes tomava o lugar de tudo. Os dias difíceis eram longos.
Mas no jardim ela ficava calma.
Sempre no jardim, sempre naquele canto, sempre com aquela expressão que a enfermeira Graça descrevia como a única vez em que Dona Sônia parecia completamente presente — olhos claros, postura diferente, as mãos que paravam de tremer.
Levaram quatro meses pra entender o motivo.
Foi o jardineiro Seu Benedito quem descobriu por acidente numa tarde de terça. Ele estava aparando a cerca do lado de fora do muro quando ouviu o som familiar — o miado fino e específico que ele já conhecia. Olhou por cima do muro.
Dona Sônia estava do lado de dentro com a mão espalmada em cima da pedra.
Do lado de fora, pressionando o focinho contra a palma dela através da superfície áspera do muro — um Siamês. Velho. Com manchas cinzas ao redor do focinho que vinham com os anos. Olhos azuis que Seu Benedito reconheceu imediatamente porque eram os mesmos olhos que ele havia visto no quintal da casa amarela ao lado por mais de uma década.
Ele foi até a administração do lar naquela tarde.
A diretora foi até a casa amarela na manhã seguinte. Bateu. Uma mulher de meia idade atendeu — Cristina, sobrinha de Dona Sônia, que havia assumido a casa quando a tia foi para o lar. Quando a diretora descreveu o gato Cristina ficou quieta por um momento.
— Esse é o Azul — ela disse por fim.
Azul tinha treze anos. Havia chegado filhote na casa amarela numa caixa de sapatos trazido por Dona Sônia herself — isso foi antes do diagnóstico, antes de tudo, quando ela ainda sabia o nome de todo mundo e cantava enquanto regava as plantas do quintal. Ela e o gato haviam sido companhia um do outro por onze anos antes de ela precisar ir para o lar.
Cristina havia ficado com o gato.
Nunca imaginou que ele havia encontrado o caminho até o muro dos fundos. Nunca imaginou que fazia isso todo dia.
Quando Cristina entendeu o que havia acontecido — que Azul havia localizado onde Dona Sônia estava e ia até lá todo dia no mesmo horário — ela ficou na soleira da porta sem conseguir falar por um longo tempo.
A diretora do lar ligou pra família de Dona Sônia naquela tarde. As duas filhas que moravam em cidades diferentes tiraram folga e vieram no fim de semana. No domingo de manhã toda a família estava no jardim dos fundos do Lar São Francisco quando Cristina chegou com Azul no colo.
Ela passou o gato por cima do muro com cuidado.
Azul pousou no chão do jardim e foi direto — sem hesitar, sem cheirar o ar, sem explorar — até Dona Sônia que estava sentada no banco de madeira perto do muro. Subiu no colo dela com a prática de quem conhece aquele lugar de cor.
Dona Sônia abaixou os olhos.
Ficou olhando pro gato por um momento.
Então disse, com uma voz mais clara do que qualquer pessoa havia ouvido em meses:
— Azul. Você demorou hoje.
As filhas choraram. Cristina chorou. A enfermeira Graça que estava do lado precisou virar o rosto.
Dona Sônia não notou. Estava ocupada passando a mão no pelo do gato com aquela precisão calma de quem fez isso milhares de vezes e não precisa pensar pra acertar.
Depois do domingo a diretora do lar ajustou a política de visitas.
Azul tem entrada autorizada três vezes por semana.
Ele nunca faltou.
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