Ela Sabia o Caminho

 

A clínica veterinária do Dr. Henrique ficava numa rua tranquila do bairro, entre uma padaria e uma loja de materiais de construção que nunca parecia estar aberta mas nunca estava fechada.

Era uma clínica pequena — duas salas de atendimento, uma recepção com quatro cadeiras, uma auxiliar chamada Patrícia que trabalhava ali há seis anos e que havia desenvolvido ao longo desse tempo a capacidade de manter a expressão neutra diante de qualquer coisa que entrasse pela porta. Cães que mordiam. Gatos que urinavam de nervosismo no colo dos donos. Uma vez uma cobra numa caixa de sapatos que o homem juro que era dócil.

Patrícia havia visto de tudo.

Na manhã de uma quinta-feira de setembro, às dez e vinte, a porta da clínica se abriu.

Não havia ninguém segurando. A porta era automática, ativada por sensor, e havia se aberto para um Siamês.

Patrícia olhou por cima do balcão.

A gata — era uma fêmea, isso ficou claro segundos depois — entrou com a passo firme de quem conhece o destino e foi direto até a frente do balcão de recepção. Depositou no chão, com um cuidado que Patrícia levou um momento para processar, um filhote minúsculo que havia estado carregando na boca.

O filhote caiu na posição sentada com a desorientação de quem acabou de ser pousado num lugar que não reconhece. Tinha olhos semicerrados e inchados — uma infecção, Patrícia reconheceu imediatamente.

A gata sentou ao lado do filhote e olhou para Patrícia.

Patrícia abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.

— Dr. Henrique — ela chamou em voz que pretendia ser normal e não foi.

O médico saiu da sala dois com uma espátula de madeira ainda na mão e parou na entrada da recepção.

Os dois ficaram olhando por um momento.

A gata estava olhando para eles com aquela expressão Siamesa que mistura paciência com expectativa de resultados imediatos.

— Ela trouxe o filhote — disse Patrícia, sentindo que a frase era óbvia mas necessária.

— Eu vi — disse o Dr. Henrique.

Ele se abaixou, examinou o filhote na frente da mãe — que ficou absolutamente imóvel mas com atenção total enquanto ele manipulava o filhotinho. Infecção ocular bilateral, confirmou. Tratável. O filhote precisava de colírio duas vezes ao dia por cinco dias.

Enquanto o Dr. Henrique voltava pra sala para pegar o medicamento a gata se levantou, foi até a porta automática que se abriu para ela, saiu.

Patrícia foi até a janela.

A gata atravessou a rua, entrou no terreno baldio do outro lado, e sumiu na vegetação.

Patrícia ficou olhando o filhote sozinho na recepção.

— E agora? — ela perguntou quando o médico voltou.

— Agora esperamos — ele disse.

Oito minutos depois a porta abriu de novo.

A gata entrou com um segundo filhote na boca. Mesmos olhos. Mesma infecção. Mesmo procedimento. Ela o depositou ao lado do primeiro e foi embora novamente.

Patrícia e o Dr. Henrique ficaram parados na recepção com dois filhotes Siameses sentados no chão olhando para eles e não falaram nada por um tempo.

— Ela vai voltar — disse o Dr. Henrique.

— Com quantos? — perguntou Patrícia.

— Não sei.

A gata voltou com um terceiro filhote dezesseis minutos depois.

Depois que o Dr. Henrique examinou o terceiro e confirmou a mesma infecção a gata fez algo diferente desta vez. Em vez de sair imediatamente ela ficou na recepção, foi até cada filhote, os cheirou um por um, e então foi até a porta e esperou que ela abrisse.

Antes de sair virou a cabeça para o Dr. Henrique uma última vez.

Ele disse depois, quando contou a história, que havia algo naquele olhar que não conseguia classificar como instinto. Era específico demais. Era direcionado demais.

Era a cara de alguém que havia feito o que havia vindo fazer.

Os três filhotes foram tratados na clínica durante os cinco dias de medicação. Patrícia os alimentou com mamadeira. O Dr. Henrique aplicou o colírio pessoalmente duas vezes ao dia com uma delicadeza que seus pacientes humanos de outras espécies provavelmente invejaria.

A gata apareceu na porta da clínica todos os dias durante os cinco dias de tratamento. Não entrava. Ficava do lado de fora olhando através do vidro por alguns minutos e ia embora.

No quinto dia, quando o tratamento terminou e os filhotes estavam com os olhos abertos e saudáveis, Patrícia os colocou numa caixa e foi até a calçada.

A gata estava lá.

Patrícia abriu a caixa no chão.

Os três filhotes saíram trotando e foram direto para a mãe.

Ela os cheirou um por um. Depois os reuniu e foram os quatro pelo terreno baldio de volta para onde haviam vindo.

Patrícia ficou parada na calçada por um longo tempo depois que desapareceram.

O Dr. Henrique apareceu na porta atrás dela.

— Você ficou sabendo como ela sabia que era uma clínica veterinária? — ela perguntou sem virar.

— Não — ele disse.

— Eu também não.

Ficaram os dois na calçada no silêncio da rua tranquila entre a padaria e a loja que nunca parecia aberta mas nunca estava fechada.

Sem resposta.

Mas com a sensação clara de que havia acontecido algo que não precisava de resposta para ser real.

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