Estação
Ninguém sabe ao certo quando ele apareceu.
A teoria mais aceita entre os frequentadores da Rodoviária Central era que tinha sido em junho — alguém lembrava de um dia de chuva forte em que um gato Siamês havia entrado pela porta automática junto com um grupo de passageiros e simplesmente não saído. Mas havia quem dissesse que era antes disso, que ele já estava lá em maio, que em abril alguém havia comentado sobre um gato no canto da sala de espera C.
A questão da data era secundária. O que importava era que ele estava lá, e que em algum ponto a rodoviária havia aceitado isso com a resignação passiva das instituições grandes demais pra se preocupar com detalhes.
O primeiro a deixar comida foi Seu Benedito — aposentado, setenta e um anos, que pegava o ônibus das 7h20 pra visitar a irmã toda terça e voltava no das 11h45. Descobriu por acaso que o gato aceitava um pedaço do seu pão de queijo. A partir daí passou a trazer dois.
A primeira a deixar água foi uma universitária que passou pela rodoviária numa segunda-feira e voltou na quinta com uma vasilha de plástico pequena que colocou no canto da sala de espera C sem falar com ninguém.
O cobertor veio de uma fonte não identificada numa noite de julho.
A placa apareceu numa manhã de agosto.
Estava fixada na parede acima do canto com fita adesiva dupla-face — papelão cortado em retângulo, letras feitas com canetão preto numa caligrafia cuidadosa de quem havia pensado no que ia escrever antes de escrever:
Este é o Estação. Ele mora aqui. Por favor, seja gentil.
Ninguém assumiu a autoria. Ninguém precisou.
O nome pegou com a naturalidade das coisas que fazem sentido — Estação, o gato da rodoviária, como podia ter outro nome. Os funcionários passaram a usá-lo nos walkie-talkies com uma naturalidade que ninguém havia autorizado e que ninguém contestou. Estação está na sala C. Estação está dormindo na área de embarque. Alguém viu Estação?
Em setembro a administração da rodoviária enviou um memorando.
O memorando dizia que a presença de animais nas instalações era contrária às normas sanitárias vigentes e que o animal deveria ser removido até o fim da semana.
Na manhã seguinte havia uma carta na mesa da diretora.
Não uma carta — cento e quarenta e sete cartas. Passageiros, funcionários, motoristas, faxineiros, o senhor da banca de revistas, a senhora do guichê 4 que estava na empresa há dezessete anos e que, segundo ela própria escreveu com letra firme no final da sua carta, nunca havia assinado nada antes mas assinava aquilo.
A diretora leu as cento e quarenta e sete cartas.
Depois ligou pro departamento jurídico pra perguntar se havia algum precedente de animal de suporte emocional em espaço público de trânsito.
O memorando não foi adiante.
Estação continua na sala de espera C. Tem uma caminha de tecido no canto, duas vasilhas — uma pra comida, uma pra água — e uma plaquinha que já foi substituída duas vezes porque a fita adesiva não segurava no inverno úmido.
Seu Benedito ainda traz pão de queijo toda terça.
Às vezes, quando a rodoviária está cheia e o barulho é muito, Estação sai do canto e vai sentar do lado de algum passageiro específico — sempre alguém sozinho, sempre alguém que está esperando faz tempo, sempre alguém com aquela expressão particular de quem não sabe bem o que fazer com a espera.
Fica do lado.
Não faz nada além disso.
Mas às vezes do lado é o suficiente.
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