Não Estava Sozinho
O doutor Henrique tinha sessenta e três anos e atendia o seu Waldemar há vinte e dois deles.
Conhecia o paciente com aquela intimidade específica dos médicos de família que ficam tempo suficiente — não só os exames, não só os números, mas os padrões, as resistências, as formas particulares com que cada pessoa lida com o que não quer lidar. Sabia quando o seu Waldemar estava minimizando algo. Sabia quando o sorriso era real e quando era a versão educada do sorriso que as pessoas fazem quando não querem preocupar ninguém.
Depois que os filhos foram pro exterior — um pra Portugal, outro pro Canadá — o doutor Henrique havia começado a fazer visitas domiciliares ao seu Waldemar a cada dois meses. Não porque o estado clínico exigisse. Porque vinte e dois anos de consulta ensinam coisas que o prontuário não captura.
Em toda consulta ele perguntava como estava.
Em toda consulta seu Waldemar dizia bem.
O doutor Henrique anotava isso. Anotava também a pressão, o peso, os exames. Mas a palavra bem ele havia aprendido a ler com cuidado.
Na visita de outubro ele chegou às dez da manhã. Bateu. Esperou. Bateu de novo.
A porta abriu e seu Waldemar estava de avental de cozinha, com uma expressão de quem foi pego em algo que não planejava mostrar. Atrás dele, na mesa da cozinha, havia uma xícara de café, uma fatia de pão com manteiga, e um Siamês sentado no lado oposto da mesa olhando pra porta com a expressão de quem não gostou de ser interrompido.
— Estava tomando café — seu Waldemar disse, com uma naturalidade que não era completamente natural.
O doutor Henrique entrou. Sentou na cadeira da cozinha. Aceitou o café que foi oferecido. O gato — que seu Waldemar apresentou como Tostão, com a brevidade de quem não quer desenvolver o assunto — voltou a olhar pra janela com aquela concentração específica dos gatos que estão processando alguma coisa importante que só eles conseguem ver.
A consulta foi como sempre — pressão, perguntas, respostas, o vai e vem de duas décadas de conversa médica.
No final o doutor Henrique guardou o estetoscópio.
— Quando chegou o Tostão?
Seu Waldemar considerou por um momento se havia vantagem em minimizar.
— Oito meses.
— Como aconteceu?
— Apareceu no pátio. Fui dar comida. Ficou.
O doutor Henrique olhou pro gato na mesa. O gato olhou de volta com a indiferença característica de quem foi mencionado numa conversa que não pediu pra ter.
— O senhor está dormindo melhor?
Uma pausa.
— Sim.
— Está comendo melhor?
Outra pausa. Menor.
— Sim.
O doutor Henrique fechou a pasta. Na rua, já no carro, abriu o prontuário de seu Waldemar na parte de notas de visita. Digitou a data, os dados de sempre, e depois ficou um momento com o cursor piscando.
Então escreveu:
Paciente afirma estar bem. Desta vez acredito.
E depois, depois de um segundo de hesitação:
Não está sozinho. Tem um gato.
Guardou o prontuário. Ligou o carro.
Nas visitas seguintes o café passou a ser servido com duas xícaras na mesa — uma pra ele, uma pra seu Waldemar — e Tostão continuou sentado do lado oposto com a expressão de quem faz parte da rotina e sabe disso.
O doutor Henrique nunca mais precisou ler a palavra bem com tanto cuidado.
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