Ninguém Devia Estar Tão Sozinho

 

O farol de Ponta Negra ficava a quarenta e sete minutos de barco da costa mais próxima.

No inverno, quando o mar fechava e as janelas tremiam com o vento que vinha do sul, podia parecer que o resto do mundo havia desistido de existir. Eduardo sabia disso antes de aceitar o posto — havia lido os relatórios, conversado com o predecessor, pesado os contra e os prós com a meticulosidade de quem está prestes a assinar algo que não tem volta fácil.

Aceitou assim mesmo porque tinha certas coisas das quais precis
ava se afastar por um tempo, e quarenta e sete minutos de barco parecia distância suficiente.

O barco de suprimentos vinha a cada quinze dias.

Eduardo aprendeu a fazer a lista com precisão cirúrgica — não podia esquecer nada porque esquecer alguma coisa significava quinze dias sem aquela coisa. Café, arroz, feijão, mantimentos básicos, livros quando tinha dinheiro sobrando, medicamentos. A equipe da costa era eficiente e simpática nos limites do que o protocolo permitia.

No terceiro mês chegou uma caixa que ele não havia pedido.

Era pequena, de papelão reforçado, com furos no lado e um lacre de fita adesiva que alguém havia colado com mais cuidado do que o necessário para uma caixa qualquer. Havia um bilhete pregado na tampa com uma tachinha — Eduardo tirou, dobrou, leu em pé no cais com o vento tentando levar o papel.

Decidimos que ninguém devia estar tão sozinho assim. Ele não tem nome ainda. Isso é por sua conta.

Dentro da caixa havia um Siamês de aproximadamente quatro meses olhando pra ele com os olhos azuis levemente entortados da forma que os filhotes têm antes de aprender a focar direito.

Eduardo ficou olhando pro gato por um tempo.

Depois olhou pro mar.

Depois olhou pro farol.

— Farol — disse em voz alta, testando. O gato piscou. — Não. Muito óbvio.

Ficaram se encarando.

— Vento.

O gato bocehou.

— Tá bom. Você decide.

O gato não decidiu naquele dia mas nos dias seguintes foi deixando claro, pela forma como respondia a certos sons, que o nome que queria era Sal. Eduardo não lembrava de ter dito a palavra em voz alta mas talvez tivesse — o sal estava em tudo no farol, no ar, na pele, na água, nas tábuas do piso.

Sal ficou sendo Sal.

Seis anos no farol de Ponta Negra. Eduardo aprendeu coisas que não estão em nenhum manual de faroleiro — como o comportamento de Sal mudava antes das tempestades, como o gato tinha rotas específicas dentro do farol que respeitava com uma consistência que Eduardo depois entendeu serem as rotas que ofereciam a melhor vista do mar em cada hora do dia, como a companhia de um animal muda a qualidade do silêncio de uma forma que é difícil de explicar mas que qualquer um que tenha vivido sozinho por tempo suficiente vai reconhecer.

No fim do sexto ano o posto foi encerrado — automação, orçamento, as razões burocráticas que encerram coisas sem precisar entender o que estavam encerrando.

Eduardo tinha direito a uma viagem de barco com seus pertences.

Perguntou sobre o gato.

Houve uma pausa do outro lado do rádio. Depois: não há protocolo específico para isso.

Eduardo empacotou seus pertences. Colocou Sal na caixa de transporte que havia compedido na última entrega de suprimentos. Subiu no barco.

Quarenta e sete minutos depois chegou à costa com tudo que havia levado e uma coisa que não havia levado.

Sal dorme na janela do apartamento novo. Eduardo diz que o gato continua olhando pro horizonte toda manhã com a mesma atenção de sempre.

Velhos hábitos de farol.

Comments

Popular posts from this blog

Pelos Corredores da Emergência

O Nome na Pedra

Às Cinco e Meia da Manhã