Nos Trilhos

Diana havia colado cartazes em duzentos e quarenta e três postes.

Ela havia contado. Não por obsessão — porque era a única forma que tinha de medir o que estava fazendo quando o que estava fazendo parecia não estar tendo efeito. Duzentos e quarenta e três postes, quarenta e seis estabelecimentos comerciais, doze grupos de WhatsApp de bairro, quatro páginas de animais perdidos no Facebook, e um perfil no Instagram que havia criado especificamente para a busca e que tinha cento e dezessete seguidores que ela nunca havia pedido e que mandavam mensagens de apoio que ela lia de madrugada quando não conseguia dormir.

A Belinha havia sumido há quatro meses.

Uma Siamesa de cinco anos que havia saído pela janela aberta numa tarde de outubro em que Diana havia descido para pegar uma encomenda e subido doze minutos depois para encontrar a janela igual mas o apartamento com uma qualidade de silêncio diferente — o tipo que ela levou duas horas para aceitar como real.

Quatro meses de cartazes e grupos e o perfil com cento e dezessete seguidores e nenhuma notícia.

Até a Giovana postar o vídeo.

Giovana tinha vinte e três anos e esperava o metrô na plataforma da estação República numa quarta-feira à noite quando viu algo nos trilhos. Filmou. Postou no TikTok com a legenda: achei um gato no metrô. alguém conhece?

O vídeo foi para a frente da Diana às onze da noite.

Ela estava deitada sem dormir com o celular em cima do peito quando a notificação chegou — uma amiga havia marcado ela nos comentários do vídeo da Giovana com um: não é essa?

Diana abriu.

No vídeo, nos trilhos da estação República, havia uma Siamesa.

Ela ficou olhando para a tela por um tempo que depois não conseguiu reconstruir com precisão.

Depois começou a digitar nos comentários com as mãos que não estavam completamente firmes.

Esse é meu gato. Ela se chama Belinha. Está desaparecida há quatro meses. Por favor me chama.

Giovana viu o comentário às onze e vinte e dois. Entrou em contato às onze e vinte e três.

O problema era o óbvio — a Belinha estava nos trilhos. Não havia como descer sem risco. O maquinista do metrô havia sido avisado mas o serviço não podia ser interrompido. A equipe de manutenção havia verificado mas a Belinha havia fugido para um trecho de galeria que não tinha acesso fácil.

Diana foi até a estação na manhã seguinte.

Ficou na plataforma.

A Belinha apareceu nos trilhos três vezes durante as duas horas em que Diana ficou ali. Cada vez Diana ficou na beira da plataforma chamando o nome em voz baixa. A terceira vez a Belinha ficou parada nos trilhos olhando para cima por um tempo mais longo do que as vezes anteriores.

Diana foi para casa com um plano e um engradado de atum.

Na semana seguinte, com a ajuda de dois funcionários de manutenção que haviam visto o vídeo e concordado em ajudar fora do horário, uma armadilha humana foi colocada nos trilhos durante a janela de manutenção da madrugada.

A Belinha entrou na armadilha às duas e quarenta e seis da manhã.

Diana estava na plataforma.

Os dois funcionários a chamaram pelo rádio.

Ela desceu pela escada de manutenção — coisa que a equipe havia deliberadamente não visto acontecer — e pegou a Belinha no colo dentro da armadilha.

Ficou nos trilhos do metrô abraçada ao gato por um tempo.

Ninguém cronometrou.

Comments

Popular posts from this blog

Pelos Corredores da Emergência

O Nome na Pedra

Às Cinco e Meia da Manhã