O Assistente da Sala Três
A professora Renata havia dado aula por quatorze anos e havia aprendido nesse tempo que crianças de nove anos são governadas por uma lógica própria que os adultos passam a vida tentando reconstruir depois de tê-la perdido.
Então quando o Siamês entrou pela janela aberta da Sala Três numa manhã de abril e foi sentar ao lado da mesa dela como se tivesse sido contratado, ela esperou para ver o que as crianças fariam.
Elas ficaram completamente quietas.
Vinte e três alunos que normalmente precisavam de três chamadas para sentar direito ficaram imóveis nas cadeiras olhando para o gato com a atenção que ela levava semanas tentando obter para frações e concordância verbal.
— Bom dia — disse ela, endereçando igualmente às crianças e ao gato por falta de melhor protocolo.
O gato a olhou.
— Bom dia, professora — disseram as crianças em uníssono, o que também era incomum.
O Siamês ficou na Sala Três naquele dia. Ficou sentado ao lado da mesa dela durante as duas primeiras aulas, depois caminhou pelas fileiras de carteiras farejando as mochilas com uma metodologia que as crianças acharam fascinante e que Renata achou perturbadora até perceber que o gato estava efetivamente indo de carteira em carteira sem pular nenhuma, o que sugeria mais organização do que alguns dos seus alunos demonstravam no trabalho escolar.
No intervalo as crianças ficaram na sala.
Isso nunca havia acontecido.
No dia seguinte o gato voltou pela janela às sete e quarenta e oito — doze minutos antes do sino. A faxineira Dona Neuza, que estava limpando o corredor, disse depois que ele havia passado ao lado dela com uma pressa específica que ela havia identificado como propositada.
Renata chegou às sete e cinquenta e encontrou o gato sentado na cadeira dela.
Ele não saiu da cadeira.
Ela ficou parada na porta por um momento avaliando a situação.
Depois foi buscar outra cadeira.
Na terceira semana havia uma cama de gato embaixo da mesa que as crianças haviam construído coletivamente com caixas de papelão, uma camiseta velha e o entusiasmo de um projeto de grupo que havia excedido em qualidade qualquer trabalho de ciências do trimestre.
A diretora Conceição apareceu na porta da Sala Três numa quarta-feira.
Renata estava explicando divisão com o gato sentado na mesa ao lado dos marcadores — não em cima dos marcadores, ao lado, uma distinção que as crianças haviam estabelecido com ele na segunda semana através de um processo que Renata não havia testemunhado mas cujos resultados eram visíveis.
— Professora Renata — disse a diretora.
— Sei — disse Renata sem parar de escrever no quadro.
— Há um gato.
— Há.
— Na sala de aula.
— Há.
A diretora ficou parada na porta por um momento.
— Como estão as notas da turma? — ela perguntou.
Renata parou de escrever. Foi até a mesa, abriu a pasta, virou para a diretora.
A média havia subido quatro pontos em três semanas.
A diretora olhou para os números. Olhou para o gato. Olhou para os números de novo.
— Há alguma alergia na turma? — ela perguntou.
— Verifiquei. Não há.
A diretora assentiu uma vez.
— Bom — ela disse. E foi embora.
Um mês depois um pai ligou para a escola reclamando. Disse que havia falta de seriedade em ter um animal de rua na sala de aula. A diretora Conceição o ouviu com atenção. Depois disse que a turma tinha a melhor média da escola naquele trimestre, a menor taxa de faltas do ano, e que os próprios alunos haviam coletivamente escrito — espontaneamente, sem tarefa — um texto de dois parágrafos explicando o que haviam aprendido com o gato sobre paciência, observação e respeito pelo espaço do outro.
Disse que enviaria cópia do texto se ele quisesse ler.
O pai não ligou de novo.
O gato ficou na Sala Três até o fim do ano letivo, quando as férias começaram e a janela foi fechada. Na primeira manhã de agosto, quando a escola reabriu e Renata chegou para preparar a sala, o gato estava sentado no parapeito de fora esperando.
Ela abriu a janela.
Ele entrou, foi direto para o lugar embaixo da mesa, e se deitou.
Como alguém retomando o posto depois de férias merecidas.
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