O Cigarro Que Ele Não Terminou
Henrique voltou do Afeganistão em outubro com uma lesão cerebral que os médicos conseguiam medir e uma dor que não conseguiam.
Havia passado oito meses num campo de operações que havia sido atacado duas vezes. Havia perdido um amigo no segundo ataque — um homem com quem havia dividido barraca, refeições, o humor específico que se desenvolve entre pessoas que convivem sob pressão constante e que não tem equivalente no mundo civil. Voltou com a cabeça que não processava bem os estímulos fortes, com os sonhos que não deixavam o campo para trás, e com uma dificuldade de estar em lugares cheios de gente que havia tornado o supermercado uma experiência que ele evitava.
A família não sabia o que fazer. Os médicos tratavam o que conseguiam tratar. O resto ficava com ele nas horas em que a casa estava quieta e os pensamentos não.
Numa noite de novembro ele saiu para o quintal dos fundos.
Tinha um cigarro no bolso. Havia parado de fumar dois anos antes mas havia comprado o maço naquela tarde sem saber exatamente por quê — da mesma forma que naquela noite havia saído para o quintal sem saber exatamente o quê ia fazer, só que havia decidido que era a última vez que precisaria decidir alguma coisa.
Estava chovendo levemente.
Ele acendeu o cigarro.
Ouviu um som nos arbustos no fundo do quintal.
Ficou parado.
O som veio de novo — pequeno, intermitente, úmido.
Do escuro entre os arbustos um Siamês emergiu. Filhote. Encharcado. Com os pés na grama molhada e os olhos nele — direto, sem desviar — como alguém que havia localizado o que estava procurando e estava confirmando o endereço.
O gato foi até Henrique e encostou o lado do rosto na canela da calça.
Henrique ficou parado com o cigarro na mão.
O gato encostou de novo. Ficou ali.
Henrique abaixou o cigarro.
Abaixou o cigarro e ficou agachado no quintal molhado com um filhote Siamês encharcado que não havia pedido licença para aparecer naquele momento específico daquela noite específica e que ficou no colo dele enquanto a chuva continuava sem se importar com nenhuma das duas coisas.
Henrique não terminou o cigarro.
Entrou com o gato.
Nos meses seguintes a recuperação não foi linear — raramente é. Havia dias ruins. Havia semanas ruins. Mas havia também o gato, que ele chamou de Escudo sem conseguir explicar completamente por quê exceto que era o que parecia certo, que dormia aos pés da cama nos dias em que Henrique não conseguia sair dela, que ficava do lado sem exigir explicação ou desempenho ou progresso mensurável.
Só ficava.
Seis meses depois Henrique foi a um evento de adoção num centro veterinário numa manhã de sábado. Não havia planejado ir — a namorada havia sugerido e ele havia concordado com a energia de quem tem energia suficiente para concordar mas não para decidir.
Estavam andando entre as gaiolas quando uma patinha disparou de uma delas e bateu no braço esquerdo de Henrique com uma precisão que não parecia aleatória.
Ele parou.
Olhou para dentro da gaiola.
Um Siamês. O mesmo pelo creme. Os mesmos olhos azuis diretos. O mesmo olhar de quem não está fazendo uma pergunta — está confirmando.
Henrique abriu a gaiola.
Tirou o gato.
Ficou parado no corredor do centro veterinário segurando o gato no peito enquanto a namorada o olhava com uma expressão que ela depois disse que não conseguia descrever mas que havia fotografado com o celular porque havia sentido que precisava guardar.
O gato ronrou.
Henrique ficou parado por um tempo.
Depois disse, em voz muito baixa, uma coisa que ele não havia conseguido dizer para nenhum médico, nenhum terapeuta, nenhum familiar:
— Esse aqui eu conheço.
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