O Dia Que a Lavoura Foi Dos Outros

 

Seu Hermínio tinha sessenta e nove anos e nunca havia pedido ajuda.

Não era orgulho no sentido ruim da palavra — era a lógica de quem havia aprendido desde menino que pedir era dar trabalho, que dar trabalho era dever, que dever colocava peso onde não devia ter peso. Então em quarenta e dois anos de lavoura ele havia plantado, irrigado, colhido, remendado cerca, consertado trator, enterrado gado e rezado por chuva em silêncio, sem chamar ninguém para o que era dele.

A propriedade não era grande — vinte e três alqueires de soja no planalto central, o suficiente para viver com dignidade se o ano fosse razoável e com cuidado se não fosse. Havia anos bons e anos difíceis e Seu Hermínio havia aprendido a diferença entre os dois pela espessura da nuvem em julho.

O gato chegou por conta própria há cinco anos.

Um Siamês que havia aparecido numa manhã na varanda da casa como se a propriedade fosse o destino planejado e ele estivesse só se certificando de que o endereço era certo. Seu Hermínio colocou um prato de leite. O gato comeu. E ficou.

Nos cinco anos seguintes o Coronel — como Seu Hermínio havia começado a chamá-lo, sem razão específica além de que o gato tinha uma postura que sugeria hierarquia — havia se tornado parte da propriedade com a naturalidade de uma árvore que cresce no lugar certo. Dormia na varanda, caçava nas bordas do cerrado, aparecia na hora do almoço com a consistência de um relógio e ficava sentado na cerca do apiário — não dentro, não fora, na cerca — quando Seu Hermínio trabalhava.

Em setembro daquele ano Seu Hermínio teve uma trombose.

Não grave — o médico usou essa palavra com o cuidado de quem sabe que não grave não significa simples. Significava repouso, significava medicação, significava que a soja que estava pronta para colheita em quatro semanas ia ficar no campo enquanto ele ficava na cama da enfermaria.

A filha foi buscá-lo depois de três dias. Levou para a casa dela na cidade.

O Coronel ficou na propriedade com a Dona Lurdes, a vizinha que havia se oferecido para cuidar dos animais. Ela dizia depois que o gato ficava sentado na cerca que dava pra estrada todo dia, olhando na direção de onde os carros vinham.

Na quarta semana, quando a soja estava no ponto limite e mais uma semana de espera significaria perda de qualidade e valor, o João do sítio vizinho foi até a propriedade.

Não ligou antes. Foi.

Chegou com o trator às seis da manhã. Começou o primeiro corredor.

Às sete chegou o Dinorá, que tinha sítio do outro lado da estrada. Com o próprio trator.

Às oito chegaram mais três — o Cido, o Renato e o filho do finado Geraldo que havia herdado o sítio do pai e que era novo na região e que foi porque o João havia passado na frente da casa dele e feito um gesto com a cabeça que não precisava de explicação.

Em um dia colheram os vinte e três alqueires.

O Coronel ficou sentado na cerca o dia inteiro.

Não na cerca da estrada onde ficava esperando — na cerca do campo. Acompanhando o movimento dos tratores de um lado pro outro com aquela atenção calculista que Seu Hermínio havia aprendido a reconhecer como presença real e não decorativa.

Quando o João foi embora no fim da tarde passou pela cerca e colocou a mão aberta perto do gato. O Coronel farejou e ficou quieto.

— Cuida do sítio — disse o João.

E foi.

Seu Hermínio ficou sabendo pelo telefone naquela noite quando a filha atendeu e colocou no viva-voz porque ele ainda não conseguia segurar o aparelho direito.

Ficou quieto por um tempo depois que João desligou.

A filha perguntou se estava bem.

— Estou — ele disse.

Ficou em silêncio mais um momento.

— Eu nunca pedi — ele disse então, mais baixo, não pra filha, pra ninguém específico. — E eles foram assim mesmo.

A filha não disse nada. Às vezes não há o que dizer.

Na manhã seguinte Seu Hermínio pediu que ela o levasse de volta pra propriedade. O médico havia dito mais duas semanas de repouso. Ele disse que descansava lá.

O Coronel estava na cerca da estrada quando o carro chegou.

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