O Dono da Oficina




Ninguém trouxe o Pistão.

Ele simplesmente apareceu numa manhã de março, magro e com o pelo sujo de graxa, como se tivesse passado a noite dentro de algum motor. O Seu Zé, que era o dono da oficina e não gostava de gato desde uma infância mal explicada, apontou pra porta e disse que o bicho tinha que sair. O Pistão olhou pra ele, bocejou, e foi se deitar em cima do capô do Gol que estava na fila pra troca de óleo.

Seu Zé não insistiu.

Com o tempo a oficina foi ficando do Pistão tanto quanto do Seu Zé. Ele tinha lugares fixos em cada momento do dia — de manhã cedo ficava no capô do carro mais próximo da entrada, onde o sol batia primeiro. Depois do almoço migrava para o banco de ferramentas no fundo, onde estava na sombra e podia observar todo mundo. Quando chovia ele subia no armário alto perto do compressor e ficava lá em cima olhando a chuva com uma expressão de superioridade que irritava o Cláudio, o mais novo da equipe, e arrancava risadas de todo mundo.

Os cinco mecânicos aprenderam a trabalhar com ele.

O Toninho, que era o mais velho e tinha mãos que pareciam feitas de ferro, foi o primeiro a deixar uma tigela d'água no canto. Disse que era pra o gato não beber da poça de óleo. O Marquinho trouxe ração numa sacola plástica numa terça-feira sem avisar ninguém. O Cláudio, que reclamava do gato toda semana, foi flagrado coçando a barriga do Pistão durante o horário de almoço e nunca mais disse nada sobre não gostar de gato. O Rafael deixava a manta velha dobrada no banco do fundo todo inverno. E o Seu Zé — que não gostava de gato desde uma infância mal explicada — passou a chegar dez minutos mais cedo toda manhã. Ninguém perguntou por quê. Todo mundo sabia.

Dois anos assim.

A oficina era pequena e antiga e o aluguel foi subindo enquanto o movimento foi caindo. Seu Zé tentou segurar por quanto pôde. No fim de um outubro ele reuniu os cinco na sala dos fundos e disse com voz firme que ia fechar no último dia do mês. Agradeceu a cada um pelo nome, apertou mão de todos, e foi embora rápido antes que alguém visse que os olhos estavam marejando.

Ninguém falou do Pistão naquele dia.

Mas todo mundo estava pensando nele.

Na semana seguinte, enquanto iam desmontando a oficina peça por peça, o assunto surgiu naturalmente numa sexta à tarde. O Toninho disse que ia levar o Pistão. O Marquinho disse que não ia, porque ele havia pesquisado sobre gatos Siameses e tinha descoberto que eles precisavam de espaço e ele tinha apartamento maior. O Cláudio disse que os dois estavam errados porque o Pistão claramente tinha mais conexão com ele — e ali o Toninho e o Marquinho viraram ao mesmo tempo com a mesma expressão de descrença completa.

O Rafael ficou quieto até o Seu Zé entrar na discussão do lado de fora sem que ninguém o chamasse.

Ficaram os cinco em pé no meio da oficina vazia discutindo por duas horas enquanto o Pistão dormia no banco de ferramentas que ainda não tinha sido desmontado, completamente alheio ao debate sobre o seu próprio destino. Cada um tinha argumento, cada um tinha história, cada um tinha a certeza absoluta de que o gato preferia ele.

No fim o Rafael — que não tinha falado nenhuma vez — disse em voz quieta que talvez não precisasse ser uma escolha definitiva.

Então foi assim que aconteceu.

O Pistão foi pra casa do Toninho na primeira semana. Na segunda foi pro apartamento do Marquinho, onde ficou dois dias farejando cada canto antes de escolher o sofá. Na terceira semana foi pro Cláudio, que comprou uma cama de gato cara demais e fingiu que havia sido promoção. Na quarta foi pro Rafael, que morava numa casa com quintal e disse que a visita seria mais longa porque o Pistão precisava de ar. O Seu Zé fechou a lista — o gato ficaria com ele nas últimas duas semanas do mês, no sobrado onde ele morava sozinho desde que os filhos cresceram.

Isso foi há um ano e quatro meses.

O Pistão ainda circula entre as cinco casas toda semana. O Toninho montou um grupo no celular chamado Escala do Pistão onde combinam os detalhes de cada transfer com uma seriedade que nenhum deles aplicava às próprias finanças. O Marquinho criou uma planilha de saúde e alimentação que o veterinário elogiou na última consulta. O Cláudio jura que o gato dorme melhor na casa dele do que em qualquer outro lugar, e ninguém briga porque cada um acha a mesma coisa.

Seu Zé disse numa roda de conversa recente que a oficina fechou mas que de alguma forma a equipe continuava se encontrando toda semana por causa de um gato Siamês que apareceu numa manhã de março sem que ninguém convidasse.

Disse que não trocava por nada.

O Pistão, consultado sobre o assunto, bocejou.

Como sempre fez.

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