O Homem que Chegava na Hora Certa
O Seu Antônio chegava sempre na hora certa.
Não um minuto antes. Não um minuto depois. Quarenta e três anos trabalhando no mesmo horário na mesma fábrica haviam calibrado o seu relógio interno com uma precisão que nem a aposentadoria conseguiu desfazer. Então quando os
rins falharam e o nefrologista explicou com cuidado que seriam três sessões por semana, quatro horas cada, o Seu Antônio anotou os horários num papel dobrado, guardou no bolso da camisa, e passou a aparecer na clínica de hemodiálise às oito da manhã em ponto toda segunda, quarta e sexta.
Nem um minuto antes. Nem um minuto depois.
Ele cumprimentava a recepcionista com um aceno de cabeça, sentava na cadeira do canto da sala de espera — sempre a mesma, a que ficava um pouco afastada das outras — e ficava olhando pra janela até chamar o seu nome. Não lia revista. Não olhava celular. Não conversava com os outros pacientes que vinham e iam, cada um carregando o seu próprio peso invisível.
A enfermeira chefe, Dona Fátima, disse uma vez pra uma colega em voz baixa que o Seu Antônio parecia um homem que havia aprendido a ocupar o menor espaço possível no mundo.
Ninguém sabia muito sobre ele. Viúvo havia oito anos. Dois filhos que moravam em outros estados e ligavam aos domingos. Uma casa no bairro com um quintal que ele não tinha mais disposição pra cuidar. Uma vida que havia encolhido aos poucos, como um tecido lavado muitas vezes, até sobrar só o essencial.
O gato chegou numa quarta-feira de julho.
A clínica havia aderido a um programa de terapia assistida por animais — algo que a diretora havia lido num artigo e decidido experimentar. O Siamês se chamava Sultão e tinha olhos azuis que pareciam avaliar cada ambiente antes de decidir se merecia a sua presença. Chegou numa caixinha de transporte, saiu com calma, cheirou o ar da sala de espera e foi direto para o canto onde ficava o Seu Antônio.
O Seu Antônio olhou pro gato.
O gato olhou pro Seu Antônio.
Dona Fátima, que estava observando da recepção, disse depois que foi como ver dois velhos conhecidos se reencontrando numa estação de trem.
O Sultão pulou na cadeira do lado — não no colo, só do lado — e ficou sentado olhando pra janela na mesma direção que o Seu Antônio. Os dois ficaram assim por vinte minutos em silêncio até chamarem o nome dele. O Seu Antônio se levantou, olhou pro gato por um momento, e foi. O Sultão ficou na cadeira até o fim do expediente.
Na sexta-feira o Seu Antônio chegou dez minutos antes.
Dona Fátima notou mas não disse nada. Viu ele entrar, cumprimentar com o aceno de sempre, e ir direto pro canto. O Sultão estava lá. O Seu Antônio sentou, o gato virou a cabeça pra ele, e em algum momento que ninguém conseguiu identificar exatamente a mão do Seu Antônio desceu devagar e pousou nas costas do gato.
Foi a primeira vez que alguém na clínica viu o Seu Antônio tocar em alguma coisa com cuidado.
Na semana seguinte ele chegou vinte minutos antes. Trouxe um saquinho de petisco no bolso da camisa, no lugar do papel dobrado com os horários que ele já sabia de cor. Sentou no canto, o Sultão pulou desta vez no colo sem ser convidado, e o Seu Antônio ficou passando a mão no pelo do gato com uma lentidão que parecia antiga — como alguém que não esqueceu como se faz, só havia ficado muito tempo sem ocasião.
Dona Fátima mudou a escala do Sultão para garantir que ele estivesse sempre na sala de espera nas manhãs de segunda, quarta e sexta.
Com o tempo as sessões foram ficando menos pesadas pra ele. Não porque a máquina mudou, não porque os rins melhoraram — mas porque havia uma hora antes de cada sessão que era só dele e do gato, no canto da sala, olhando pela janela sem precisar explicar nada pra ninguém. O Sultão não fazia perguntas. Não olhava com pena. Não dizia que ia ficar tudo bem. Só ficava do lado com um peso quente e constante que o Seu Antônio havia esquecido como era sentir.
Numa segunda-feira de setembro, quando Dona Fátima chegou pra abrir a clínica às sete e quarenta, encontrou o Seu Antônio sentado no banco de fora na calçada esperando.
Ela perguntou se estava tudo bem.
Ele disse que sim. Que havia chegado cedo porque queria ter mais tempo.
Ela não perguntou mais tempo pra quê. Abriu a porta, foi buscar o Sultão da salinha dos fundos e colocou na sala de espera antes mesmo de ligar os computadores.
O Seu Antônio entrou, sentou no canto, e o gato foi até ele.
Dona Fátima disse pra uma colega naquele dia, de novo em voz baixa, que o Seu Antônio ainda ocupava o mesmo espaço de sempre na cadeira do canto.
Mas que parecia que ele havia parado de encolher.
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