O Leitor Não Cadastrado
A Biblioteca Central do campus havia sido inaugurada em 1987 com capacidade para oitenta mil volumes e a promessa arquitetônica de ser um espaço de concentração e silêncio que o calor do verão e os prazos de fim de semestre testavam regularmente.
O gato chegou em março.
Ninguém viu como na primeira vez. Simplesmente apareceu entre as estantes do segundo andar numa tarde de quarta-feira, caminhando pelas passagens com a atenção de quem leu o catálogo e tem um setor específico em mente. A bibliotecária Luciana, que havia passado dezoito anos organizando o acervo e que tinha uma memória razoavelmente completa de quem e o quê havia passado por aquelas prateleiras, não soube dizer em qual momento ele havia entrado.
— Ele estava lá — ela disse depois, quando o assunto foi levantado na reunião de equipe. — Ponto.
O Siamês havia se acomodado numa poltrona de leitura no canto do segundo andar que ficava perto da janela leste — a que pegava o sol da tarde — e estava dormindo com a desenvoltura de alguém que havia escolhido o lugar depois de comparar alternativas.
Luciana foi até lá.
O gato abriu um olho.
Fechou.
Ela ficou parada por um momento avaliando a situação dentro dos parâmetros das normas internas da biblioteca, que eram extensas e cobriam uma variedade impressionante de situações mas que não incluíam, ela havia confirmado, disposições específicas sobre Siameses em poltronas de leitura.
Ela foi buscar agua numa caixinha que havia no armário da copa.
Colocou ao lado da poltrona.
Na semana seguinte o gato havia descoberto como entrar.
A porta principal tinha sensor automático. Ele havia aprendido — ninguém sabia quando ou como, esta era uma das questões que ficou em aberto — que se ficasse sentado no tapete externo da entrada por tempo suficiente um estudante abriria a porta de qualquer jeito, porque havia sempre um estudante chegando ou saindo. Usava esse sistema três, quatro vezes por semana.
Sempre ia para o canto do segundo andar.
Ficava até as cinco da tarde, que era quando o sol saía da janela leste.
Depois ia embora.
O problema surgiu quando alguém — nunca descobriram quem — reclamou para a coordenação do campus. A coordenação enviou um memorando para a biblioteca pedindo que o acesso do animal fosse impedido por questões de conservação do acervo e alergia potencial dos usuários.
Luciana colocou um aviso na porta.
Por favor, não deixe o gato entrar.
Na manhã seguinte o aviso tinha sete anotações escritas por baixo com diferentes canetas.
Por que não?
O gato não late.
Ele nunca arrumou confusão.
Minha concentração melhorou desde que ele apareceu. — Aluna do 4º ano de Direito.
Se o gato sair eu também saio. — Coletivo de alunos do bloco C.
Ele foi o único que ficou quieto durante a minha defesa de TCC na sala ao lado. Merece uma cadeira permanente. — Prof. Dr. Armando.
É o usuário mais respeitoso que temos. — Biblioteca Central (Luciana)
A última era de Luciana.
Ela havia escrito às seis da manhã antes de abrir, com o gato sentado do lado de fora no tapete esperando, e havia sentido que era a coisa certa a dizer.
A coordenação recebeu o aviso fotografado por três alunos diferentes no mesmo dia.
Uma semana depois chegou um e-mail confirmando que a questão havia sido reconsiderada à luz dos comentários da comunidade acadêmica.
Luciana imprimiu o e-mail.
Colocou num porta-retrato pequeno.
Pôs ao lado da poltrona do segundo andar com um cartãozinho que dizia: Reservado.
O gato não precisou de cartão para saber que o lugar era dele.
Mas Luciana achou que era justo fazer constar.
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