O Que o Azul Viu

 

Dona Conceição tinha diabetes há dezesseis anos e havia desenvolvido com o tempo uma relação com a doença que era menos de medo e mais de negociação.

Ela sabia o que podia e o que não podia. Sabia os sinais do corpo quando o açúcar baixava — a leveza de cabeça que começava pelos olhos, a fraqueza nas mãos que chegava devagar como maré. Tinha o glucosímetro na mesinha de cabeceira. Tinha os balas de glicose na gaveta da cozinha. Tinha um regime de alimentação que a filha havia ajudado a montar e que ela seguia com a disciplina de quem sabe que a alternativa não é uma opção.

O problema com as coisas que a gente sabe que pode acontecer é que às vezes acontecem de um jeito que a gente não planejou.

O Azul havia chegado na vida dela três anos antes — uma Siamês de olhos tão intensamente azuis que o nome havia se imposto antes que ela terminasse de pensar num alternativo. Ele dormia nos pés da cama, comia no horário, e havia estabelecido uma rotina de interação com Dona Conceição que era baseada em termos que ele mesmo havia definido e que ela havia aceito porque na prática funcionava bem para os dois.

O marido, Seu Geraldo, dormia no quarto contíguo havia dois anos — ronco, disse ele, para não perturbá-la. Ela nunca havia discutido o assunto porque o ronco era real e porque a cama ficou mais fácil de dormir depois.

Na madrugada de uma sexta-feira de outubro Dona Conceição acordou com uma sensação que reconheceu imediatamente.

A leveza dos olhos. A fraqueza das mãos.

Estendeu o braço para a mesinha de cabeceira. O glucosímetro estava lá mas os dedos não obedeceram direito na primeira tentativa. Tentou de novo. Na terceira tentativa o aparelho caiu no chão e ela não conseguiu rastrear o som com suficiente precisão para localizá-lo no escuro.

Tentou se sentar. Não conseguiu completamente.

Ficou deitada sabendo o que estava acontecendo e calculando a distância até a gaveta da cozinha com a clareza específica de quem está perdendo clareza.

Foi quando o Azul fez algo que nunca havia feito.

Ele estava nos pés da cama como sempre. Mas se levantou, caminhou pelo colchão até a altura do rosto dela, e começou a miar.

Não o miado de fome. Não o miado de atenção. Era outro — mais alto, mais contínuo, com uma urgência que Dona Conceição reconheceu mesmo no estado em que estava porque era exatamente a urgência que ela sentia por dentro mas não conseguia transformar em ação.

Ele miou na direção da parede que separava o quarto do quarto do Seu Geraldo.

Parou. Miou de novo.

Parou. Miou de novo.

Do outro lado da parede o Seu Geraldo acordou. Ficou quieto por um momento — o tipo de quieto de quem está decidindo se o que ouviu justifica sair da cama. O Azul miou pela quarta vez com uma intensidade que resolveu a questão.

O Seu Geraldo abriu a porta.

Encontrou Dona Conceição deitada com os olhos abertos e a expressão que ele havia visto uma vez antes, seis anos atrás, que havia resultado em ambulância e três dias de hospital. Não perdeu tempo. Pegou as balas de glicose da gaveta da cozinha, chamou a emergência, ficou do lado dela falando com ela até os paramédicos chegarem.

O Azul ficou na cama ao lado dela o tempo todo.

Quando os paramédicos entraram ele saiu do quarto sozinho e foi se sentar na cozinha, que era o que fazia quando havia gente demais no espaço dele.

O Seu Geraldo, que estava segurando a mão da esposa na maca enquanto levavam ela, parou no corredor na saída e olhou pra trás para o quarto vazio.

O Azul havia voltado para os pés da cama e estava sentado olhando para a porta aberta.

O Seu Geraldo ficou parado no corredor por um momento.

— Eu já volto — ele disse em voz baixa.

E foi.

O médico no hospital disse que mais trinta minutos sem intervenção teriam sido suficientes para uma situação irreversível.

Quando Dona Conceição voltou pra casa dois dias depois o Azul estava no pé da cama no lugar de sempre.

Ela se deitou.

Ele caminhou até o rosto dela, como havia feito naquela madrugada, e ficou ali parado olhando pra ela por um momento.

Depois voltou para o lugar dele nos pés da cama.

Como se o que havia feito fosse parte normal da rotina deles e agora a rotina estivesse reestabelecida.

Dona Conceição ficou olhando pro teto por um longo tempo.

— Obrigada — ela disse em voz baixa.

Do fundo da cama não veio resposta.

Mas o peso nos pés era real e constante e ela fechou os olhos com a sensação de que era suficiente.

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