O Último Serviço


O restaurante da Família Assunção abriu em 1987.

Trinta e seis anos de almoço e jantar, seis dias por semana, com folga apenas nas segundas porque o Seu Assunção dizia que segunda era dia de a carne descansar junto com o cozinheiro. Três gerações haviam comido ali — avós que haviam trazido os filhos, filhos que haviam trazido os netos, netos que apareciam sozinhos pela primeira vez e pediam o mesmo prato da avó como se a receita fosse uma linha que conectava o tempo.

O gato chegou no inverno de 2020.

Apareceu na viela dos fundos numa noite fria, magro o suficiente para que o cozinheiro-chefe Maurício achasse que não ia sobreviver à semana. Maurício colocou um prato de sobra na viela. O gato comeu. Na noite seguinte estava lá de novo. Maurício colocou outro prato.

Isso foi há três anos.

O Siamês — que ganhou o nome de Caldo, numa votação informal da cozinha que levou quatro minutos e nenhuma objeção — havia se tornado parte da operação do restaurante com a mesma naturalidade com que o cardápio de inverno substituía o de verão. Ele tinha horários. Aparecia no fim do almoço quando as sobras eram separadas, sumia durante a tarde e voltava quando o jantar começava a cheirar. Dormia num caixote de madeira forrado com a toalha velha que a Rosinha, a auxiliar de cozinha, havia trazido de casa numa terça-feira sem avisar ninguém.

Cada funcionário tinha a sua coisa com o Caldo.

Maurício separava o peixe. Rosinha trocava a toalha do caixote quando via que estava muito amassada. O Tiago, que lavava louça e tinha dezessete anos e era o mais novo, ficava com o Caldo no colo durante os intervalos e dizia que o gato entendia as suas reclamações melhor do que qualquer pessoa. O Fernando, o garçom que trabalhava ali há onze anos e raramente demonstrava emoção sobre coisa nenhuma, havia sido visto duas vezes coçando a barriga do Caldo com uma delicadeza que não combinava com a expressão habitual.

E havia a Dona Perpétua, a caixa, que guardava uma latinha de ração dentro da gaveta do caixa e fingia que era para emergências mas que abria toda tarde às três com uma regularidade que não enganava ninguém.

Quando o Seu Assunção filho — que havia assumido o restaurante do pai cinco anos antes — reuniu a equipe numa segunda-feira para dizer que o aluguel havia triplicado e que não havia como continuar, o silêncio que veio depois não foi o silêncio de surpresa. Era o silêncio de quem já sentia que estava vindo mas esperava que não viesse.

O último dia foi marcado para a sexta-feira seguinte.

Na sexta, o restaurante fechou ao público às dez da noite. A equipe limpou, guardou, fechou as câmaras, desligou os equipamentos. O Assunção filho apertou mão de cada um no corredor, foi pro escritório e ficou lá.

Às onze da noite a viela dos fundos estava vazia.

Na manhã de sábado — com o restaurante fechado, a porta dos fundos selada, sem motivo nenhum para que qualquer um deles voltasse àquela viela — apareceu o Tiago. Com uma lata de atum na mão.

Depois chegou a Rosinha. Com uma toalha nova ainda embrulhada na embalagem.

Depois o Fernando. Com um sachê de ração que havia comprado na farmácia da esquina que ficava aberta aos sábados.

Depois a Dona Perpétua com a latinha do caixa que ela havia levado pra casa na sexta sem perceber que estava fazendo isso.

E por último o Maurício, que tinha um pedaço de peixe grelhado embrulhado em papel alumínio e uma expressão de quem havia dormido mal.

Ninguém tinha combinado.

O Caldo estava na viela.

Ficaram ali os cinco em pé na viela fechada do restaurante que não era mais deles numa manhã de sábado — sem avental, sem uniforme, sem função — e nenhum conseguiu dizer nada por um tempo.

Foi o Fernando que falou primeiro.

— Alguém vai ficar com ele?

Todos olharam pro Tiago, que era o mais novo e que havia passado mais horas com o Caldo no colo do que qualquer outro. O Tiago olhou pro gato. O gato olhou pro Tiago.

— Eu fico — ele disse.

O Caldo foi embora com o Tiago naquela manhã numa caixa de papelão que o Maurício havia trazido sem saber bem por quê.

Na segunda-feira seguinte o Tiago mandou uma foto no grupo da equipe — que havia sido criado às dez e meia da manhã de sábado e que nenhum deles havia deixado — do Caldo dormindo no sofá da casa dele com a toalha nova da Rosinha.

A Dona Perpétua respondeu com um coração.

O Fernando não respondeu nada.

Mas não saiu do grupo.

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