Presença

Na manhã do primeiro dia de setembro de um ano que o inspetor escolar depois descreveu nos relatórios como irrepetível, um Siamês entrou pela porta aberta da Escola Municipal Jardim das Flores.

Não havia ninguém na portaria. A inspetora Dona Benedita havia ido ao banheiro por três minutos e o gato havia aproveitado a janela de tempo com uma precisão que mais tarde alimentaria debates sobre a natureza da coincidência.

Ele caminhou pelo corredor principal, passou pela secretaria, passou pela sala dos professores, e entrou pela primeira porta aberta que encontrou — a Sala Seis, onde a professora Tereza estava organizando as carteiras para o primeiro dia de aula.

Ela o viu entrar.

Ele foi direto à frente da sala, se sentou ao lado do quadro, e a olhou.

Tereza tinha trinta e dois anos de magistério e havia desenvolvido com o tempo a capacidade de absorver o inesperado sem demonstração externa excessiva. Olhou para o gato. Olhou para o quadro. Continuou organizando as carteiras.

Quando as crianças chegaram às sete e trinta o gato estava na Sala Seis.

As crianças ficaram encantadas. O gato ficou indiferente ao encantamento mas tolerou as atenções com a compostura de quem estava ali por razões que não tinham a ver com aprovação mas que não excluíam o carinho quando oferecido com respeito.

No fim do dia ele saiu.

As crianças acharam que era o fim da história.

Na manhã seguinte, quando o sino das sete e trinta tocou, ele estava na porta.

Tereza abriu.

Ele entrou e foi para o lugar ao lado do quadro.

Isso aconteceu todos os dias úteis do ano letivo.

Nas férias de julho ele sumia — ninguém sabia para onde — e reaparecia na primeira manhã de agosto com a pontualidade de alguém que havia verificado o calendário escolar. Nos feriados não vinha. Nos dias de chuva vinha da mesma forma que nos dias de sol. Nos dias em que havia reunião pedagógica e as crianças não tinham aula ele não vinha, o que levantou entre o corpo docente uma questão sobre percepção de ambiente que ninguém conseguiu responder satisfatoriamente.

A professora Tereza o chamou de Presença porque era o que ele era — uma presença, constante e específica, sem agenda além de estar.

Com o tempo ele foi ficando famoso.

Jornais do bairro vieram. Depois jornais da cidade. Um fotógrafo tirou uma foto dele sentado ao lado do quadro durante uma aula de matemática que foi publicada numa revista e que Tereza recortou e colocou na pasta de recordações ao lado das fotos das turmas de formatura.

Presença era fotografado todo ano com a turma do último ano — uma tradição que havia começado quando a primeira fotógrafa havia pedido por brincadeira e que havia se tornado protocolo tão estabelecido quanto o bolo da formatura.

Na décima sexta fotografia Presença estava mais lento. O pelo havia ficado mais fino ao redor das orelhas e do focinho. Ele ainda vinha todos os dias mas chegava um pouco depois do sino e saía um pouco antes do fim da aula.

Tereza havia se aposentado dois anos antes mas voltava todo setembro para a foto.

Naquele ano ela foi buscar ele na porta antes do sino.

Ficaram os dois no corredor por um momento antes de entrar — ela com sessenta e quatro anos e trinta e quatro de magistério, ele com dezesseis de presença perfeita num lugar que havia escolhido sozinho numa manhã em que a inspetora havia ido ao banheiro por três minutos.

A foto daquele ano foi diferente das outras.

Não pela turma. Pela expressão da Tereza — que havia sempre sido de professora nas fotos anteriores, de responsável pelo enquadramento e pelo comportamento e pelo resultado, e que naquele ano era de outra coisa que o fotógrafo depois disse que não sabia nomear exatamente mas que havia feito ele esperar mais do que o habitual antes de apertar o botão.

Presença morreu em agosto.

A escola colocou uma placa pequena na parede da Sala Seis.

Tem dois parágrafos.

O segundo começa com: Não faltou um dia.

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