Quatro da Manhã
Ricardo dormia bem.
Era uma das coisas que as pessoas que o conheciam mencionavam quando falavam dele — ele dormia bem, comia bem, trabalhava bem, vivia com uma eficiência tranquila que às vezes parecia programada mas que era simplesmente o resultado de quarenta e sete anos fazendo as coisas sem complicar o que não precisava ser complicado.
O Faraó havia entrado na vida dele havia quatro anos de um jeito que Ricardo depois descrevia como uma sequência de decisões que não pareciam decisões no momento em que foram tomadas. A filha havia trazido o Siamês filhote numa caixa numa visita de fim de semana, dissera que era temporário enquanto a amiga viajava, a amiga nunca pediu de volta, e Ricardo nunca perguntou.
O Faraó dormia no cobertor dobrado no canto do quarto que Ricardo havia colocado ali sem saber muito bem por quê numa segunda-feira à noite e que havia virado o lugar do gato da mesma forma que certas coisas viram o lugar de certas coisas sem que haja uma decisão formal.
Ricardo dormia bem.
Até as quatro da manhã de uma quinta-feira de novembro quando acordou com o Faraó no peito.
Não era incomum — o gato subia na cama às vezes e Ricardo o movia sem acordar completamente e continuava dormindo. Mas desta vez o Faraó não estava apenas deitado no peito. Estava de pé. Com as patas dianteiras pressionadas contra o esterno de Ricardo. Miando.
Ricardo disse em voz baixa: — Faraó, vai pro lugar.
O Faraó não foi.
Ricardo empurrou gentilmente. O Faraó voltou para o peito. Miou mais alto.
Ricardo abriu os olhos completamente.
Foi nesse momento que notou.
Havia algo diferente no lado esquerdo do peito. Não dor exatamente — era mais cedo para dor. Era uma pressão. Uma qualidade de peso no lado esquerdo que não estava lá quando ele havia deitado e que não combinava com o peso do gato em cima dele.
Ele ficou parado por um momento tentando acordar o suficiente para avaliar.
O Faraó miou pela terceira vez diretamente no rosto dele.
Ricardo se sentou na cama.
A pressão aumentou quando sentou. Desceu pelo braço esquerdo com uma lentidão que foi suficiente para que ele entendesse o que estava acontecendo antes de ela chegar até a mão.
Ele pegou o celular na mesinha.
Discou o SAMU.
Disse o endereço, disse os sintomas, disse que estava sentado na cama com um gato no colo porque o gato havia insistido em ficar com ele e ele não tinha força para mover o animal agora mesmo.
A atendente do SAMU disse que a ambulância estava a caminho e que ele devia permanecer sentado e acordado.
Ricardo disse que sim.
Ficou sentado na cama com o Faraó no colo esperando a ambulância.
O gato havia parado de miar.
Ficou deitado no colo de Ricardo com o queixo apoiado nas patas dianteiras, olhos abertos, completamente quieto agora que Ricardo estava acordado e sentado e com o celular na mão.
Como se o trabalho tivesse sido feito e agora fosse só esperar junto.
Os paramédicos chegaram em oito minutos.
Quando entraram no quarto encontraram Ricardo sentado na beira da cama com um Siamês no colo e a expressão de alguém que estava assustado mas que havia feito o que havia para ser feito e estava cooperando com o processo.
No hospital o cardiologista disse que o infarto havia sido interceptado precocemente — o tipo de precocidade que muda o prognóstico de forma significativa.
Ricardo ficou internado por quatro dias.
A filha foi buscá-lo na alta.
No caminho para casa ele pediu que ela passasse na pet shop.
Ela perguntou o quê ele precisava.
Ele disse que queria comprar algo melhor para o Faraó dormir. Que o cobertor dobrado no canto do quarto havia cumprido o papel dele mas que era hora de uma upgrade.
A filha perguntou o que havia acontecido com o cobertor.
Ricardo ficou olhando pela janela do carro por um momento.
— Nada — ele disse. — Só acho que ele merece melhor.
Comments
Post a Comment