Querido Milo
A caixa estava debaixo da cama.
Não era escondida — estava apenas lá, como tantas outras coisas que os anos vão empurrando pra baixo das camas e pro fundo dos armários não por segredo mas por acúmulo. Uma caixa de sapatos, daquelas de papelão grosso, com uma fita de barbante amarrando a tampa.
Juliana encontrou enquanto limpava o quarto do pai três dias depois do velório. Puxou pra fora com a indiferença de quem está no piloto automático do luto, aquele estado em que você faz coisas práticas porque parar é perigoso. Desamarrou o barbante. Levantou a tampa.
Cartas.
Dezenas, centenas de cartas. Dobradas em três, cada uma com uma data escrita no canto superior direito com a letra miúda e inclinada do pai. Juliana pegou a primeira — mais amarelada, mais frágil — e abriu.
Querido Milo,
Esta semana você derrubou o vaso da sala pela terceira vez. Estou começando a achar que você faz isso de propósito pra me ver juntar os pedaços.
Juliana olhou pra caixa. Olhou pro gato. Milo — um Siamês de doze anos que havia chegado quando ela ainda morava em casa e que o pai havia recebido com a resistência cerimonial de todo homem que no fundo quer um gato mas acha que não deve querer — estava sentado na cama olhando pra ela com aquela expressão que não revelava nada.
Ela pegou outra carta.
Querido Milo,
Choveu a semana inteira. Você ficou na janela olhando pra chuva como se esperasse que ela fosse te dar uma explicação. Eu entendo esse sentimento.
E outra.
Querido Milo,
Fui ao médico hoje. Não vou escrever aqui o que ele disse porque algumas coisas ficam melhor guardadas. Mas você ficou no colo a tarde inteira sem que eu pedisse. Obrigado por isso.
Juliana leu por três horas.
Seiscentas e quatorze cartas ao todo — ela contou depois, numa tarde em que precisava de um número concreto pra segurar. Uma por semana durante onze anos, com poucas exceções que o pai documentava com o rigor de quem leva compromissos a sério: esta semana não escrevi porque estive no hospital, compensarei na próxima.
As cartas eram sobre tudo e sobre nada. O tempo, as notícias, a dor no joelho que o médico dizia que era da idade, a vizinha que reclamava do volume da televisão, as saudades da mãe de Juliana que apareciam nas cartas com uma regularidade e uma delicadeza que ela não havia visto nos onze anos em que os pais foram casados. Coisas que o pai não dizia em voz alta porque não era um homem de palavras faladas — mas que escrevia toda semana pra um gato com a honestidade de quem sabe que o destinatário não vai julgar.
A última carta era de oito dias antes.
Querido Milo,
Estou cansado de um jeito que não é de hoje. Mas você ainda está aqui, e isso ainda conta. Continua contando muito.
Com carinho de sempre, Seu Orlando
Juliana dobrou a carta com cuidado e colocou de volta na caixa.
Milo pulou da cama e veio se deitar no colo dela no chão.
Ela ficou assim até escurecer — com o gato no colo, a caixa ao lado, e seiscentas e quatorze semanas do pai que ela nunca havia conhecido completamente.
Levou a caixa pra casa.
Às vezes, quando a saudade aperta de um jeito que não tem endereço certo, abre uma carta aleatória e lê.
É a forma que encontrou de continuar a conversa.
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