Vinte e Dois Minutos

 

Seu Geraldo tinha setenta e oito anos e mãos que haviam construído muita coisa.

Casas, principalmente. Quarenta anos de pedreiro — fundações, paredes, telhados. Mãos que haviam misturado cimento, carregado tijolo, assentado cerâmica com uma precisão que orgulhava. Mas o tempo foi fazendo o que o tempo faz, e aos setenta e oito as mãos que haviam construído tanto eram mãos que tremiam levemente quando segurava o copo de água e que não tinham mais a força que ele sabia que precisaria quando sabia que precisaria.

Ele pensou nisso enquanto estava parado no estacionamento do supermercado com os dois punhos cerrados no vidro do carro ao lado.

A filha havia entrado para fazer as compras. Ele preferiu esperar do lado de fora — o supermercado era grande e frio e cheio de gente que passava rápido demais e ele gostava de ver o movimento do estacionamento, os carros entrando e saindo, as crianças com os carrinhos. Estava sentado no banco do passageiro com a porta aberta e a perna pra fora quando ouviu.

Um som. Fraco. Vindo do carro estacionado à sua direita.

Ele ficou quieto. O som veio de novo.

Seu Geraldo se levantou devagar — os joelhos tinham opinião própria sobre levantadas rápidas — e foi até o carro do lado. Se abaixou para olhar pelo vidro traseiro.

Dentro do banco de trás, numa poça de sol que o vidro transformava em forno, havia um filhote Siamês. Devia ter no máximo dois meses. Estava ofegante, a bocinha aberta, os olhinhos semicerrados. O carro estava trancado e o sol do meio-dia de fevereiro batia direto no teto metálico há quem sabia quantas horas.

Seu Geraldo foi até o porta-malas do carro da filha, pegou a sacola de ferramentas que ficava lá desde que ele havia arrumado a torneira dela semana passada, e voltou.

Tirou o martelo.

Ficou olhando pra janela do carro.

Então olhou para as próprias mãos.

Sabia o que precisava — um golpe preciso no canto inferior do vidro, onde o impacto se espalhava melhor, onde quebrava limpo. Havia visto isso ser feito. Sabia a teoria. Mas as mãos que haviam assentado milhares de tijolos com precisão milimétrica eram agora mãos que tremiam e que não garantiam mais o que o cérebro pedia.

Ele ficou parado por um momento.

Depois colocou o martelo de volta na sacola.

Foi até o vidro, colocou as duas palmas abertas no vidro quente, e começou a falar.

Falou com o filhote em voz baixa e calma — do tipo de voz que se usa com criança pequena que está assustada e que qualquer barulho súbito piora. Disse que estava ali. Que não ia embora. Que alguém estava vindo. Disse o tipo de coisa que não faz sentido dizer pra um filhote de dois meses mas que fazia sentido dizer ali naquele estacionamento naquele momento porque era a única coisa que ele podia oferecer e ele ia oferecer inteiro.

Pediu pra uma mulher que passava que chamasse o segurança.

Ela foi.

Ele ficou.

Vinte e dois minutos. Sol direto. Palmas no vidro quente. Voz baixa e constante.

O filhote do outro lado do vidro ficou com o focinho encostado no vidro onde as mãos do Seu Geraldo estavam. Não sabe se era o calor das palmas ou o som da voz ou simplesmente a presença — mas parou de se agitar e ficou quieto, respirando rápido mas quieto, com o focinho no vidro.

O segurança chegou com uma ferramenta específica. Um golpe certeiro no canto do vidro. Limpo, como Seu Geraldo havia imaginado.

O filhote saiu no colo do segurança. Respiração acelerada, pelo encharcado de suor, mas vivo.

Seu Geraldo ficou do lado até a filha aparecer com as sacolas e a expressão de quem está procurando o pai pelo estacionamento há algum tempo. Ela viu a situação, viu o filhote, viu o vidro quebrado, viu as mãos do pai ainda abertas na lateral.

— Pai — ela disse.

— Ele está bem — ele disse.

Ela olhou pro pai por um momento. Depois disse que iam levar o filhote pro veterinário antes de ir pra casa.

Seu Geraldo assentiu.

No carro, com o filhote embrulhado numa blusa da filha no colo dele, ele ficou olhando pras próprias mãos abertas na dobra do tecido.

Não eram as mãos que haviam construído paredes.

Mas eram as mãos que haviam ficado.

E ficado havia sido o suficiente.

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