A Grade Que Ela Arrancou
Patrícia havia saído para trabalhar naquela manhã sob uma chuva que a previsão do tempo havia classificado como moderada e que às nove horas já havia se revelado uma classificação otimista.
A rua Bento Gonçalves havia ficado com água até o tornozelo em alguns pontos — não era incomum, era uma rua que tinha esse problema havia anos e que a prefeitura prometia resolver a cada eleição sem que a promessa avançasse além do discurso. Os moradores haviam aprendido a calcular as rotas alternativas nos dias de chuva forte.
Patrícia estava com pressa. Tinha uma reunião às nove e meia e o guarda-chuva que carregava era o tipo que protegia até certo ponto e que depois desistia silenciosamente, deixando a pessoa molhada da cintura para baixo enquanto a parte de cima permanecia tecnicamente seca.
Havia sido nesse estado — apressada, molhada, calculando o tempo até a reunião — que havia ouvido.
Um som. Agudo. Pequeno. Vindo de baixo.
Ela havia parado.
Havia olhado ao redor. A rua estava vazia — era cedo demais e chuvosa demais para que houvesse movimento. O som havia vindo de novo, mais claramente desta vez porque ela havia parado de andar e a água que escorria pelo bueiro não estava mais abafando.
Vinha do bueiro.
Patrícia havia se aproximado, ignorando a água que já havia ultrapassado a proteção dos sapatos. Havia se ajoelhado na calçada — o tipo de movimento que ela jamais teria considerado fazer dez minutos antes, vestida para uma reunião, com uma blusa que não era para entrar em contato com água de bueiro.
Havia olhado pela grade.
Lá embaixo, agarrado às barras de ferro com as patinhas dianteiras, havia um filhote Siamês.
A água estava subindo.
Não dramaticamente — mas estava subindo, e o filhote estava posicionado de um jeito que sugeria que já havia subido o suficiente para que ele precisasse se esticar para manter a cabeça fora.
Patrícia não havia pensado no que vinha a seguir.
Havia colocado os dois indicadores na grade — que era pesada, que era do tipo de ferro fundido que pesa o suficiente para que duas pessoas geralmente sejam recomendadas para movê-la — e havia puxado.
Não havia se movido.
Havia puxado de novo, com mais força, ajoelhada na água da calçada com a saia da reunião encharcada e o guarda-chuva caído ao lado dela na rua.
Na terceira tentativa a grade havia cedido.
Não completamente — havia se levantado o suficiente de um lado para criar uma abertura. Patrícia havia enfiado o braço.
A água estava fria. Mais fria do que havia esperado.
Os dedos haviam tocado pelo molhado.
O filhote havia se agarrado à mão dela com a força específica de quem está há tempo demais agarrado a alguma coisa e que não vai soltar facilmente.
Patrícia havia puxado.
O filhote havia saído da abertura completamente encharcado, tremendo, e havia feito imediatamente o que filhotes fazem quando finalmente alcançam algo seco e quente — havia se agarrado à blusa dela com as quatro patas, enterrado o rosto no pescoço dela, e ficado completamente imóvel.
Patrícia havia ficado ajoelhada na calçada por um momento, encharcada, com um filhote tremendo agarrado ao pescoço, o guarda-chuva na água ao lado, a reunião que havia começado há dois minutos.
Havia tirado o celular do bolso — molhado mas funcional.
Havia ligado para o escritório.
— Vou atrasar — havia dito.
— Por quê? — havia perguntado a colega.
Patrícia havia olhado para o filhote agarrado nela.
— Salvei um gato de um bueiro — ela havia dito.
Houve uma pausa do outro lado.
— Tudo bem — havia dito a colega. — Manda foto quando puder.
Patrícia havia desligado.
Havia ficado mais um momento ajoelhada na chuva, com o filhote que havia parado de tremer tão rápido quanto havia começado a tremer — o tipo de transição que acontece quando o corpo pequeno entende, de repente, que está seguro.
Havia se levantado.
Havia abandonado o guarda-chuva.
Havia caminhado de volta para casa — na direção contrária à reunião — com o filhote dentro do casaco, com a roupa de trabalho completamente arruinada, com os sapatos cheios d'água.
A reunião havia acontecido sem ela.
Ela havia recebido, mais tarde naquele dia, uma série de mensagens da colega perguntando como o gato estava.
Havia respondido com uma foto.
O filhote — limpo, seco, enrolado numa toalha no sofá — dormindo com aquele abandono total dos que acabaram de descobrir que o mundo, afinal, tinha lugares seguros.
A colega havia respondido apenas com um coração.
E depois: Valeu mais que a reunião.
Patrícia havia olhado para a foto.
Havia concordado.
Comments
Post a Comment