A Mulher do Peixe

 

Fernanda havia começado a filmar por razão prática.

Havia visto o gato pela primeira vez numa manhã de agosto quando havia aberto a janela da cozinha do apartamento do terceiro andar para arejar o ambiente antes do café. Havia um Siamês nos telhados do bloco de casas vizinhas — a uma distância que não era perto mas que era suficiente para ver claramente — caçando.

Não era a palavra bonita. Era a palavra certa.

O gato estava caçando com a concentração e a urgência de quem depende de cada tentativa, de quem não tem margem para tentativas mal sucedidas, de quem havia aprendido que o intervalo entre uma presa e outra não tinha garantia de prazo.

Fernanda havia ficado na janela por um tempo.

Havia pego o celular.

Havia filmado.

O vídeo havia durado dois minutos e quarenta segundos — o Siamês se movendo pelos telhados com aquela habilidade que os gatos têm e que parece impossível até que você assiste de perto, o foco que não quebrava, a tentativa que havia falhado, a tentativa seguinte.

No fim do vídeo o gato havia ficado parado num ponto mais alto do telhado e havia olhado na direção da janela de Fernanda.

Ela havia fechado a câmera.

Havia ficado na janela por mais um tempo.

Depois havia ido fazer café.

O gato havia estado nos telhados na manhã seguinte também.

E na seguinte.

Fernanda havia começado a prestar atenção no padrão. Havia um horário em que ele aparecia — sempre cedo, antes que o calor do dia tornasse os telhados insuportáveis. Havia um percurso que ele repetia com variações menores. Havia dias em que encontrava o que procurava e dias em que não encontrava.

Nos dias em que não encontrava ele ficava nos telhados por mais tempo.

Havia uma tarde em que havia ficado por quatro horas.

Fernanda havia ficado verificando pela janela ao longo da tarde com uma frequência que havia começado a perceber como monitoramento antes de conseguir nomear como preocupação.

Na manhã de uma sexta-feira havia comprado um peixe inteiro na feira.

Havia chegado em casa, havia olhado para o peixe na embalagem, havia olhado pela janela.

O Siamês estava nos telhados.

Havia um problema óbvio: ela estava no terceiro andar de um edifício e o gato estava em telhados de casas vizinhas que ficavam a um nível diferente, acessíveis por uma rota que ela havia mapeado mentalmente enquanto havia ficado na janela nas últimas semanas — havia uma saída de emergência no fundo do prédio que dava para um corredor de serviço, havia uma grade que podia ser escalada, havia o telhado do depósito que ficava adjacente às casas e que era o ponto mais próximo do percurso do gato.

Não era uma rota que fazia sentido para um adulto razoável com um peixe na mão.

Fernanda havia pego o peixe.

Havia saído pelo fundo.

Havia escalado a grade.

Havia chegado ao telhado do depósito com o peixe embrulhado no papel da feira ainda intacto.

O gato estava a uns dez metros.

Havia parado quando ela havia aparecido no telhado — havia ficado completamente imóvel com a atenção toda nela, calculando, processando, chegando a uma conclusão sobre ameaça versus oportunidade com a velocidade que a sobrevivência requeria.

Fernanda havia colocado o peixe no telhado e havia recuado dois metros.

Havia ficado parada.

O gato havia ficado parado.

Trinta segundos.

Um minuto.

Ele havia dado um passo. Depois outro. Havia chegado até o peixe, havia farejado, havia começado a comer.

Fernanda havia ficado no telhado enquanto ele comia.

Havia filmado com o celular — não com a câmera voltada para o gato, voltada para si mesma, com o peixe e o gato no fundo, com a expressão de alguém que havia acabado de escalar uma grade com um peixe inteiro e que estava avaliando a racionalidade do que havia feito e chegando à conclusão de que não havia muito o que avaliar.

Havia postado naquela noite.

O comentário mais curtido havia chegado na manhã seguinte.

Dizia: Você subiu num telhado com um peixe inteiro pra alimentar um gato de rua. Você é uma princesa Disney que alguém esqueceu no mundo real.

Fernanda havia lido o comentário três vezes.

Havia olhado pela janela.

O gato estava nos telhados.

Ela havia ido buscar o casaco e as chaves.

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