Antes de Tudo
Sebastião havia encontrado o bilhete numa calçada.
Não era o tipo de coisa que acontecia com frequência na vida de quem dormia há oito meses numa marquise a dois quarteirões da Avenida Principal, mas também não era o tipo de coisa impossível — havia gente que jogava bilhetes fora sem verificar, havia quem comprasse e esquecesse na bolsa, havia o vento que movia papéis de um lugar para outro com a indiferença específica de quem não sabe o que está carregando.
O bilhete estava dobrado entre a grade e o meio-fio.
Sebastião havia passado por ele duas vezes antes de abaixar.
Havia desbloqueado o celular de tela rachada que tinha — o básico, pré-pago, que usava principalmente para ver a previsão do tempo e para o número da assistência social — e havia pesquisado o site da loteria.
Havia digitado os números.
Havia olhado para a tela por um tempo que depois não conseguiu medir com precisão porque o tempo tinha funcionado diferente naquele momento.
O prêmio não era o tipo que aparecia nos jornais. Era o tipo menor, o segundo prêmio, o que não mudava uma vida inteira de uma vez mas que mudava o suficiente para que a vida que existia antes do bilhete fosse diferente da que viria depois.
Sebastião havia ficado sentado na calçada por um longo tempo com o celular na mão.
O Principe havia chegado ao lado dele com o trote irregular que tinha — a pata traseira esquerda havia sido machucada em algum momento antes de Sebastião o conhecer e havia cicatrizado de um jeito que deixara um andar levemente assimétrico que Sebastião havia achado perturbador no começo e que depois havia se tornado simplesmente o jeito que o Príncipe andava.
O Siamês havia deitado ao lado de Sebastião na calçada.
Como havia feito nos últimos oito meses.
Sebastião havia olhado para o gato por um tempo.
Depois havia pego o telefone de novo e havia feito uma ligação. Não para a loteria — para a assistente social, que atendia das nove às cinco e que era a pessoa mais próxima de alguém em quem confiava o suficiente para dizer o que havia acontecido sem medo de que acontecesse algo que não devia.
A assistente social havia dito o que tinha para dizer — verificação, documentação, processo.
Sebastião havia anotado o que precisava anotar.
Havia desligado.
Havia ficado olhando para o Príncipe por mais um tempo.
Na manhã seguinte havia ido ao abrigo municipal de animais que ficava a três quarteirões. Havia chegado às nove e dois quando a porta abriu. Havia pedido para falar com alguém responsável.
A funcionária que havia atendido se chamava Miriam. Tinha trinta e poucos anos e o tipo de expressão de quem havia visto muitas situações e que havia desenvolvido a capacidade de não presumir o que estava prestes a acontecer.
Sebastião havia sentado na frente da mesa dela com o Príncipe no colo.
Havia colocado o bilhete na mesa.
Havia explicado.
Miriam havia escutado sem interromper.
Quando ele terminou ela havia ficado olhando para o bilhete. Depois para o gato. Depois para Sebastião.
— Você quer que a gente encontre um lar pra ele — ela havia dito.
— Um bom lar — havia dito Sebastião. — Não qualquer um. Alguém que fique em casa. Que não tenha criança pequena demais. Ele é mais quieto.
Miriam havia olhado para o Príncipe que estava no colo de Sebastião com as patas dobradas e os olhos levemente fechados.
— Por que agora? — ela havia perguntado. — Agora que você tem condições de cuidar dele melhor.
Sebastião havia ficado quieto por um momento.
— Porque agora eu vou ter um lugar — ele havia dito. — Um lugar de verdade, com endereço. E ele está acostumado com a rua. Acostumado com o espaço. Eu não sei se ia ser bom tirar ele disso e colocar num apartamento fechado.
Havia olhado para o gato.
— Eu sei o que é se acostumar com um jeito de viver e depois ter tudo mudado de uma vez — ele havia dito em voz mais baixa. — Não quero fazer isso com ele se não tiver certeza que é melhor.
Miriam havia ficado quieta por um tempo.
— Você quer visitar? — ela havia perguntado. — Depois que encontrarmos alguém. Quer saber onde ele está.
— Sim — havia dito Sebastião. — Isso eu quero.
O Príncipe havia sido adotado por uma professora aposentada que morava sozinha num apartamento térreo com jardim que dava para a rua.
Sebastião havia visitado três vezes no primeiro mês.
Na terceira visita a professora havia feito café.
Eles haviam ficado sentados no jardim enquanto o Príncipe circulava entre os dois como alguém que havia chegado à conclusão de que havia feito uma boa escolha e que estava, a seu modo, conferindo o resultado.
Sebastião havia olhado para o gato no jardim.
Havia pensado nos oito meses.
Havia pensado no bilhete entre a grade e o meio-fio.
Havia pensado que havia muitas formas de fazer a primeira coisa certa.
E que a primeira coisa certa era diferente para cada pessoa.
Para ele havia sido aquela.
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