As Duas Mãos
O terremoto havia durado quarenta e dois segundos.
Isso era o que os sismógrafos haviam registrado. Na prática havia parecido mais longo — havia uma distorção específica do tempo nesses momentos que os bombeiros e os socorristas aprendiam com o primeiro chamado e que nunca ficava completamente familiar, por mais que a razão soubesse o que estava acontecendo.
Rodrigo havia chegado ao segundo edifício às quatorze e vinte e três.
Era o quinto chamado do dia. Havia um padrão nas primeiras horas depois de um tremor desta magnitude — os chamados chegavam em ondas, cada onda descobrindo novas situações que o primeiro levantamento não havia mapeado. O segundo edifício era um residencial de quatro andares que havia cedido no segundo e terceiro pavimentos, o que havia criado uma situação estrutural que a equipe de avaliação havia classificado como instável mas acessível.
Havia sobreviventes identificados no segundo andar.
Rodrigo havia entrado com o parceiro Marco às quatorze e trinta e um.
O espaço era o tipo que os treinamentos descrevem e que a prática ensina de um jeito diferente — paredes que haviam se tornado obstáculos, aberturas que haviam se tornado passagens, a geometria familiar do espaço doméstico reorganizada de forma que não tinha lógica disponível exceto a lógica do material cedendo.
Havia uma mulher no que havia sido a sala do apartamento 203.
Havia escombros por cima das pernas dela. Havia partes do teto. Havia o peso específico do que vinte anos de construção acumulam quando deixam de estar em pé.
Rodrigo havia ficado ao lado dela enquanto Marco havia começado a remover o que podia ser removido com segurança.
Havia falado com ela. Havia mantido o contato verbal que o protocolo exigia e que a prática havia tornado instinto — não deixar o silêncio estabelecer, não deixar o isolamento fechar.
Havia sido nesse momento que havia ouvido.
Vindo de baixo.
Não de longe — de um espaço que havia diretamente a sessenta centímetros da posição onde ele estava agachado. Uma abertura entre duas vigas que havia criado uma cavidade que o desabamento havia, por alguma combinação de acaso e física, mantido intacta.
Rodrigo havia olhado para o parceiro.
Havia olhado para a mulher que estava sendo extraída.
Havia calculado — o tipo de cálculo rápido que não é matemático, é sensorial, é o resultado de anos de situações que ensinam o que é possível e o que não é.
Havia colocado a mão direita na vigas para ajudar Marco a estabilizar a extração da mulher.
Havia enfiado a mão esquerda na cavidade.
Havia ficado com as duas mãos fazendo coisas diferentes simultaneamente por um tempo que havia parecido mais longo do que havia sido — a mão direita sustentando, a mão esquerda procurando no escuro com os dedos abertos, encontrando pelo, encontrando a forma pequena e viva que havia no escuro, fechando com cuidado.
Havia saído do edifício com a mulher apoiada no braço direito de Marco e o Siamês na mão esquerda.
Havia colocado a mulher nos cuidados dos paramédicos.
Havia olhado para o gato na mão.
O Siamês estava coberto de poeira — o pelo creme havia ficado cinza, havia detritos entre as orelhas, havia um olho parcialmente fechado por algo que havia precisado de limpeza depois. Mas estava vivo. Estava olhando para Rodrigo com os dois olhos azuis que já eram visíveis através da poeira com aquela atenção que os Siameses têm e que não é de agradecimento no sentido que os humanos constroem essa palavra — é mais simples, é presença, é o registro de que há alguém ali e que esse alguém havia sido a mão no escuro.
Marco havia chegado ao lado dele.
Havia olhado para o gato.
— Você ficou com as duas mãos ocupadas — havia dito.
— Fiquei — havia dito Rodrigo.
Havia uma pausa.
— E? — havia perguntado Marco.
Rodrigo havia olhado para o gato.
— Deu — havia dito.
A equipe havia levado o Siamês ao veterinário da unidade de suporte que acompanhava as operações. Havia sido tratado, hidratado, avaliado. Havia uma contusão leve no flanco direito que o veterinário havia dito que cicatrizaria sem complicação. Havia desidratação que o soro havia começado a corrigir em quarenta minutos.
Na semana seguinte Rodrigo havia voltado ao veterinário.
O Siamês havia ficado nos cuidados da clínica enquanto a situação havia sido avaliada — não havia tutor identificado, o edifício havia sido evacuado definitivamente, não havia quem viesse buscá-lo.
Rodrigo havia conversado com a mulher do apartamento 203 que havia sido atendida no hospital e que havia recebido alta quatro dias depois.
Havia perguntado se o gato era dela.
Ela havia dito que não. Havia dito que havia um gato que aparecia no corredor do segundo andar há alguns meses, que os moradores deixavam comida às vezes, que ninguém havia assumido formalmente.
Rodrigo havia ficado quieto por um momento.
Havia voltado ao veterinário.
Havia assinado o papel.
O Siamês havia ido pra casa dele numa tarde de quinta-feira numa caixa de transporte que havia ficado pequena demais antes mesmo de chegarem ao apartamento porque o gato havia crescido nas semanas de recuperação com a consistência de quem tinha onde dormir e quando comer e que havia aprendido que essas duas variáveis podiam ser constantes.
Rodrigo havia colocado a caixa no chão da sala.
Havia aberto a porta.
O Siamês havia saído, havia olhado para o apartamento, havia olhado para Rodrigo.
Havia ido para o canto mais quente da sala e havia se deitado.
Rodrigo havia ficado parado na entrada olhando.
— Deu — havia dito de novo em voz baixa.
O mesmo jeito que havia dito para o Marco.
Com o mesmo significado.
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