Ele Voltava Todo Dia
Camila havia resistido por trinta e dois dias.
Ela havia contado — não porque havia planejado contar, mas porque havia virado um jogo interno que ela havia desenvolvido sem perceber: acordar de manhã, ver o gato na janela, anotar mentalmente mais um dia.
O Siamês havia aparecido pela primeira vez numa segunda-feira de março.
Ela havia morado no quarto andar do prédio da Rua Consolação por dois anos sem ter noção de como um gato de rua chegaria à janela do quarto andar. Depois havia descoberto — havia uma grade de gás na parede lateral do prédio que funcionava como escada, havia a calha que corria paralela até o segundo andar, havia a saliência de concreto acima da janela do apartamento 402 que era o vizinho dela, havia a janela dela que ficava a um metro e meio dessa saliência.
Para um gato determinado era um percurso.
Ela o havia visto pela primeira vez quando estava tomando café na cozinha. Havia algo na janela. Havia olhado. Havia um Siamês com as patas dianteiras no vidro olhando para dentro do apartamento com uma atenção que não era de fome — era de avaliação.
Ela havia aberto a janela um centímetro.
O gato havia farejado o ar.
Ela havia fechado.
Havia ido trabalhar.
Quando voltou ele havia ido embora.
Na terça-feira estava de volta.
Esse padrão havia se estabelecido com uma consistência que Camila havia achado perturbadora no começo — havia algo levemente inquietante em um animal que aparecia todo dia na janela do quarto andar com a pontualidade de um compromisso marcado. Mas a perturbação havia dado lugar gradualmente a outra coisa que ela não conseguia nomear com precisão mas que tinha a textura do hábito — a expectativa baixa mas real de que quando chegasse em casa haveria algo na janela.
No décimo quinto dia ela havia aberto a janela completamente.
O gato havia olhado para a abertura.
Havia olhado para ela.
Havia ficado do lado de fora.
No vigésimo dia havia entrado até a beira do peitoril e recuado.
No vigésimo oitavo havia ficado no peitoril por vinte minutos antes de ir.
No trigésimo segundo dia Camila havia aberto a janela, havia dado um passo para trás, e havia ficado parada do outro lado da cozinha sem olhar diretamente para ele.
Ele havia entrado.
Havia olhado para a cozinha. Para o corredor. Para a sala. Com a sistematicidade de alguém fazendo uma vistoria que havia sido adiada por trinta e dois dias e que agora precisava ser concluída.
Havia encontrado o ponto mais quente do apartamento — o tapete perto do aquecedor na sala — havia dado uma volta, e havia se deitado.
Camila havia ficado parada na entrada da sala olhando.
— Trinta e dois dias — ela havia dito em voz baixa, mais para si mesma do que para ele.
Ele havia fechado os olhos.
O gato havia ficado. Não havia necessidade de decisão formal — havia ficado da mesma forma que o percurso da grade de gás até a janela do quarto andar havia existido: porque havia uma lógica própria que não precisava de aprovação de ninguém.
Três meses depois Camila havia começado a receber filhotes temporários para uma ONG de resgate que uma amiga administrava.
O primeiro filhote havia chegado numa caixa de transporte numa quinta-feira.
Camila havia aberto a caixa na sala. O filhote havia saído trêmulo, havia olhado para o ambiente, havia olhado para o Siamês que estava no tapete perto do aquecedor.
O Siamês havia levantado a cabeça.
Havia ficado olhando para o filhote por um momento.
Depois havia se levantado, havia caminhado até o filhote, havia cheirado completamente da cabeça à cauda, e havia voltado para o tapete.
Mas desta vez havia deitado do lado do filhote.
Com o corpo encostado no dele.
Como alguém que havia tomado uma decisão sobre o que aquele novo ser precisava sem que ninguém pedisse.
O segundo filhote havia chegado duas semanas depois.
O terceiro na semana seguinte.
Em seis meses o Siamês havia dormido ao lado de onze filhotes temporários. Cada um havia saído para adoção mais calmo, mais confiante, mais preparado do que havia chegado — o que a amiga da ONG havia atribuído ao protocolo de socialização mas que Camila sabia que tinha outra variável que não estava no protocolo.
A amiga havia perguntado um dia como ela havia conseguido fazer o Siamês aceitar os filhotes.
Camila havia ficado pensando.
— Eu não fiz — ela havia dito. — Ele decidiu que era o que ia fazer.
A amiga havia ficado quieta por um momento.
— Igual ao apartamento — ela havia dito.
— Igual ao apartamento — havia confirmado Camila.
O Siamês estava no tapete quando elas haviam tido essa conversa.
Com o filhote mais recente deitado ao lado.
Como sempre.
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