O Gato Que Não Precisa de Passaporte

 

A fronteira entre os dois países ficava numa estrada rural de asfalto desgastado que cortava uma paisagem de colinas verdes e pinheiros que não reconhecia linhas políticas.

Havia uma guarita de cada lado.

Na guarita da esquerda ficava o inspetor Kovač — quarenta e dois anos, vinte e um de serviço na mesma fronteira, o tipo de homem que havia aprendido a diferença entre o silêncio de uma manhã tranquila e o silêncio de uma manhã onde algo estava errado. Na guarita da direita ficava o oficial Marin — trinta e sete anos, seis de serviço, que havia pedido a transferência para aquele posto porque havia sido criado na região e que havia descoberto que crescer num lugar e trabalhar nele eram coisas consideravelmente diferentes.

Os dois não se falavam além do necessário.

Não havia hostilidade — havia a distância profissional específica de pessoas que trabalham em lados opostos de uma linha que foi desenhada por razões que nenhum dos dois havia escolhido e que precisam manter a formalidade do posto independente de como se sentem sobre a linha.

O gato havia aparecido numa manhã de abril.

Kovač havia visto primeiro — um Siamês vindo da direção da floresta pelo acostamento da estrada, andando com aquela compostura específica dos gatos que não estão perdidos, que sabem exatamente onde estão e para onde vão. Havia passado pela guarita de Kovač, havia olhado para ele brevemente — o tipo de olhar que registra sem comprometer — e havia continuado pela estrada em direção à guarita de Marin do outro lado.

Kovač havia ficado olhando.

Havia visto o gato parar na frente da guarita de Marin.

Havia visto Marin abaixar a vista da cabine, ver o gato, e abaixar a mão com alguma coisa — Kovač não conseguiu ver o quê da distância.

O gato havia ficado ali por alguns minutos.

Depois havia voltado pelo mesmo caminho. Havia passado pela guarita de Kovač novamente — desta vez havia parado, havia olhado para Kovač por um tempo mais longo, e havia ido embora em direção à floresta.

Na manhã seguinte havia voltado.

Esse havia se tornado o padrão.

O Siamês aparecia toda manhã do lado da floresta, cruzava até Marin, ficava alguns minutos, e voltava passando por Kovač. Às vezes ficava mais tempo na guarita de Kovač na volta do que na de Marin na ida. Às vezes o contrário. Havia uma variação no padrão que Kovač havia começado a registrar mentalmente sem saber bem por quê — talvez o mesmo instinto de observação que vinte e um anos de fronteira haviam desenvolvido nele.

Na quinta semana Kovač havia começado a deixar comida.

Não havia planejado — havia trazido um pedaço de frango do almoço e havia colocado no chão da guarita quando o gato parou na volta. O gato havia comido com a eficiência de quem não recusa o que é oferecido mas que também não havia precisado pedir.

Kovač havia assumido que Marin não alimentava o gato.

Marin havia assumido que Kovač não alimentava o gato.

Essa suposição havia durado três meses.

A descoberta havia acontecido de forma não planejada numa tarde em que o sistema de comunicação de rádio entre as duas guaritas havia falhado e Marin havia precisado caminhar até a guarita de Kovač para resolver uma questão de documentação de um caminhão de passagem.

Havia entrado. Havia visto a tigela.

Havia ficado olhando para a tigela por um momento.

— Você alimenta o gato? — havia perguntado.

Kovač havia olhado para a tigela. Havia olhado para Marin.

— Você também alimenta? — havia perguntado.

Havia um silêncio de dois segundos que havia contido, de alguma forma, a contabilidade de três meses de suposição mútua e incorreta.

— Toda manhã — havia dito Marin.

— Toda manhã — havia dito Kovač.

Havia outro silêncio.

O caminhão havia buzinado lá fora aguardando a documentação.

Os dois haviam resolvido a papelada. Marin havia voltado para a guarita dele.

Na manhã seguinte o gato havia chegado da floresta como sempre.

Havia parado na guarita de Kovač primeiro — o que era diferente do padrão habitual. Havia ficado ali por cinco minutos enquanto Kovač colocava a tigela. Depois havia continuado para a guarita de Marin.

Kovač havia ficado olhando pela janela da guarita.

Havia visto Marin sair da cabine com a própria tigela.

Havia visto os dois — Marin e o gato — ficarem na estrada por um tempo.

Depois havia visto Marin levantar a vista na direção da guarita de Kovač.

Havia acenado.

Kovač havia acenado de volta.

Era o primeiro gesto não relacionado ao trabalho que os dois haviam trocado em seis anos de fronteira compartilhada.

O gato havia olhado de um lado para o outro.

E havia continuado pela estrada em direção à floresta com a compostura de quem havia conseguido o que havia vindo conseguir.

O que nenhum dos dois havia sido capaz de obter em seis anos de trabalho lado a lado numa linha que não havia escolhido.

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