O Que os Gatos Devolveram

 

Eshete havia chegado a Nova York com uma mochila e o tipo de silêncio que não é paz.

Era o silêncio de quem havia visto coisas que não tinham nome disponível nas línguas que conhecia, de quem havia deixado para trás pessoas que não havia conseguido trazer, de quem havia atravessado fronteiras com a consciência de que cada fronteira cruzada era também uma distância que crescia entre ele e o lugar que havia sido seu.

A Etiópia havia ficado para trás num aeroporto às três da manhã.

Brooklyn havia chegado num ônibus às seis da tarde de uma terça-feira de novembro com frio que ele não havia previsto e uma address num papel dobrado no bolso da jaqueta que havia pertencido a outro homem e que não o protegia completamente do vento mas que era o que havia.

Os primeiros meses haviam sido do tipo que não se conta com detalhes porque os detalhes são o território de quem sobreviveu a eles e que não precisa de audiência para saber que sobreviveu.

Havia um quarto. Havia um trabalho no turno da noite num supermercado. Havia o inglês que estava melhore do que ele pensava mas que ainda tinha buracos nas horas em que o cansaço pesava mais. Havia o bairro que era denso e rápido e que não havia sido construído para quem estava aprendendo a estar nele.

E havia os gatos.

Eshete havia notado os gatos de rua do bairro na segunda semana. Não eram invisíveis — eram presentes, circulavam nas calçadas com a autonomia específica dos que vivem num lugar sem pertencerem a ninguém e que haviam estabelecido sua própria lógica de sobrevivência urbana.

Ele havia comprado atum numa tarde.

Havia colocado num prato na calçada em frente ao prédio onde morava.

Os gatos haviam vindo.

Não todos de uma vez — primeiro um, que havia comido com a pressa de quem não sabia quando a próxima oportunidade viria. Depois outro. Depois uma gata com marcas de Siamês no pelo que havia ficado um pouco mais do que os outros depois de comer, olhando para ele com aquela atenção que ele havia começado a reconhecer como algo específico — não gratidão no sentido humano da palavra, mas reconhecimento. O registro de que havia uma pessoa ali que havia feito uma escolha específica.

Eshete havia voltado no dia seguinte.

Com mais atum.

Com o tempo o ritual havia crescido. Havia pontos fixos ao longo de um percurso de oito quarteirões que ele havia estabelecido inconscientemente — as esquinas onde havia sempre alguém esperando, os becos onde havia ninhadas que precisavam de comida antes dos adultos chegassem. Havia aprendido os rostos dos gatos do bairro com a mesma atenção com que havia aprendido as faces dos colegas do supermercado — cada um com nome que ele havia dado, cada um com temperamento que havia mapeado, cada um com história que havia intuído sem ter acesso ao capítulo anterior.

A Siamesa havia sido a primeira a seguir ele.

Havia começado num trajeto, depois em dois. Depois havia passado a esperar na saída do supermercado quando ele saía do turno da madrugada — o que significava que havia calculado o horário, que havia feito alguma forma de conta que produzia o resultado certo às quatro da manhã numa calçada de Brooklyn.

Os vizinhos haviam começado a notar.

Não de forma negativa — de forma curiosa primeiro, depois familiar. O homem dos gatos. Não era um apelido que alguém havia decidido dar — havia surgido da mesma forma que os apelidos surgem quando descrevem uma realidade que todo mundo reconhece.

Uma cineasta chamada Laura havia morado no bairro.

Havia visto Eshete no percurso uma vez. Depois duas. Depois havia começado a filmar.

O documentário havia durado dois anos de produção.

Havia sido nomeado ao Oscar.

Numa entrevista depois da nomeação alguém havia perguntado a Eshete o que os gatos haviam feito por ele.

Ele havia ficado quieto por um momento.

— A guerra tira coisas — ele havia dito. — Tira a sensação de que você importa num lugar. Que há algo que depende de você estar lá.

Havia olhado para a Siamesa que estava ao lado dele durante a entrevista.

— Os gatos me devolveram isso — ele havia dito. — Havia algo que esperava por mim. Havia algo que precisava que eu voltasse.

A repórter havia ficado quieta.

Eshete havia olhado para a câmera.

— Você entende? — ele havia perguntado.

Quem havia assistido ao documentário entendia.

Porque havia algo naquilo que não era específico de uma guerra ou de um bairro ou de uma cidade.

Era o que qualquer ser que havia se sentido invisível num lugar novo reconhecia sem precisar de tradução.

A sensação de ser esperado.

De importar para algo que não pedia explicação.

De ter voltado.

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